Ao analisar os recentes resultados recordes de algumas instituições do sector bancário, é difícil não sentir o fascínio pela magnitude dos números. Há, sem dúvida, uma narrativa de resiliência que merece ser lida com atenção. No entanto, enquanto observo a euforia, dou por mim a reflectir sobre a composição real deste sucesso.
É que este tal outperformance profit tem um cheiro demasiado intenso à conjuntura. Parece-me difícil ignorar como o Yield Spread pode ter criado um ecossistema favorável, funcionando como uma espécie de maré alta que tende a levantar todos os barcos.
Esta hesitação em celebrar sem reservas remete-me ao episódio da crise das Savings and Loan nos Estados Unidos, no final da década de 80. Naquele período, o movimento das taxas de juro criou, inicialmente, uma ilusão de rentabilidade extraordinária para muitas instituições. O mercado parecia oferecer uma bonança sem fim, mas o tempo provou que esses lucros eram, em grande medida, o resultado de um desequilíbrio temporário, o tal diferencial de taxas a trabalhar a favor de quem estava posicionado, mas mascarando fragilidades que o tempo acabaria por expor de forma implacável quando a volatilidade acalmou.
É esta a dúvida que me acompanha ao percorrer as entrelinhas das análises. Questiono-me sobre o que acontecerá quando a maré estabilizar. O meu receio não é o lucro em si, mas sim a possibilidade de a bonança conjuntural estar a suavizar discussões que deveriam ser estruturais.
Estaremos a aproveitar este momento para fortalecer verdadeiramente a qualidade dos activos, ou estar-nos-emos a deixar embalar pelo conforto dos ganhos que o mercado nos oferece por via da conjuntura?
Entretanto, um par de Mumbai partilhou comigo uma analogia curiosa, dizia ele que esta situação se assemelha àquela jogada em que um defesa se lesiona subitamente e o atacante, aproveitando o momento, marca o golo. Nas bancadas, as opiniões dividem-se. Há quem celebre o golo como um sinal de instinto e eficácia; outros questionam se o resultado seria o mesmo se o adversário estivesse em plena posse das suas capacidades. No sector bancário, a dúvida é semelhante.
Não se trata de desvalorizar o mérito das instituições, mas de manter o espírito analítico sobre a sustentabilidade deste modelo num cenário de normalização.
Afinal, convém não esquecer: num mercado em mutação e sui generis, este lucro recorde pode ser apenas o sintoma de um ciclo favorável, e não a cura para os desafios estruturais.
