Opinião

Lucros em alta. Mas de onde vêm? ‎

Rogério Ngombo

Especialista em Finanças e Controladoria

20 Fevereiro, 2026 - 14:36

20 Fevereiro, 2026 - 14:36

Rogério Ngombo

Especialista em Finanças e Controladoria

‎Ao analisar os recentes resultados recordes de algumas instituições do sector bancário, é difícil não sentir o fascínio pela magnitude dos números. Há, sem dúvida, uma narrativa de resiliência que merece ser lida com atenção. No entanto, enquanto observo a euforia, dou por mim a reflectir sobre a composição real deste sucesso.

‎É que este tal outperformance profit tem um cheiro demasiado intenso à conjuntura. Parece-me difícil ignorar como o Yield Spread pode ter criado um ecossistema favorável, funcionando como uma espécie de maré alta que tende a levantar todos os barcos.

‎Esta hesitação em celebrar sem reservas remete-me ao episódio da crise das Savings and Loan nos Estados Unidos, no final da década de 80. Naquele período, o movimento das taxas de juro criou, inicialmente, uma ilusão de rentabilidade extraordinária para muitas instituições. O mercado parecia oferecer uma bonança sem fim, mas o tempo provou que esses lucros eram, em grande medida, o resultado de um desequilíbrio temporário, o tal diferencial de taxas a trabalhar a favor de quem estava posicionado, mas mascarando fragilidades que o tempo acabaria por expor de forma implacável quando a volatilidade acalmou.

‎É esta a dúvida que me acompanha ao percorrer as entrelinhas das análises. Questiono-me sobre o que acontecerá quando a maré estabilizar. O meu receio não é o lucro em si, mas sim a possibilidade de a bonança conjuntural estar a suavizar discussões que deveriam ser estruturais.

‎Estaremos a aproveitar este momento para fortalecer verdadeiramente a qualidade dos activos, ou estar-nos-emos a deixar embalar pelo conforto dos ganhos que o mercado nos oferece por via da conjuntura?

‎Entretanto, um par de Mumbai partilhou comigo uma analogia curiosa, dizia ele que esta situação se assemelha àquela jogada em que um defesa se lesiona subitamente e o atacante, aproveitando o momento, marca o golo. Nas bancadas, as opiniões dividem-se. Há quem celebre o golo como um sinal de instinto e eficácia; outros questionam se o resultado seria o mesmo se o adversário estivesse em plena posse das suas capacidades. No sector bancário, a dúvida é semelhante.

‎Não se trata de desvalorizar o mérito das instituições, mas de manter o espírito analítico sobre a sustentabilidade deste modelo num cenário de normalização.

‎Afinal, convém não esquecer: num mercado em mutação e sui generis, este lucro recorde pode ser apenas o sintoma de um ciclo favorável, e não a cura para os desafios estruturais.

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+ LIdas

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