Opinião

Osvaldo Macaia

Jurista e Gestor

07-11-2023 6:23

07-11-2023 6:23

Osvaldo Macaia

Jurista e Gestor

Confesso-vos que um dos meus livros preferidos e de cabeceira é o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa (“FP”), com a assinatura do seu heterónimo Bernardo Soares, por sinal, também o meu preferido, entre as várias personagens que este grande génio da literatura portuguesa assume. Segundo a crítica literária, trata-se, simplesmente, da obra mais importante e mais profunda de FP e a que mais reflecte a complexidade, sensibilidade e dimensão da sua mente. O Livro suscita o absurdo da existência, a inadaptação à realidade e a relativização das verdades, incluindo a ideia de Deus e do próprio sujeito, que se sente disperso por força de tanto pensar. Enfim, verdadeiras elucubrações “lúcidas”, que desafiam a nossa alma e nos convocam para um estágio de questionarmos a própria existência humana.

O estado de desassossego significa, entre outros, remeter-se a um sentimento de apoquentação, desinquietação, inquietação, agitação, incompreensão. É literalmente neste estado que me sinto quando, por força da minha curiosidade intelectual, vou discorrendo em análises sobre os grandes números macro e microeconómicos que o mundo tem estado a registar.

Por exemplo, os meus códigos de sensibilidade compreendem, mas resistem em aceitar que o valor de mercado da Apple (3 Triliões USD), em contas altas, seja igual ao Produto Interno Bruto (“PIB”) de todos os países africanos globalmente considerados (3 Triliões USD) e superior ao PIB da segunda maior economia da Europa e a sétima maior do mundo, a França, tendo esta um PIB de 2,9 Triliões USD.

Os meus códigos de sensibilidade compreendem, mas resistem em aceitar, por exemplo, que a maior Empresa de petróleo do mundo registou em 2022 um resultado líquido depois de imposto (net income after tax) de 161 Mil Milhões de Dólares, um aumento de 46% quando comparado com os 110 Mil Milhões USD registados em 2021. Uma tendência que desafia o movimento da sustentabilidade, das dinâmicas de economia verde e circular, corporizada hoje na famosa sigla ESG (Enviroment, Social and Governance).

Compreendo, mas não deixa de ser igualmente inquietante a afirmação constante no World Inequality Report 2022: (…) Os 10% mais ricos da população mundial detêm actualmente 52% do rendimento mundial, enquanto metade da população mais pobre detêm 8,5% do mesmo. A mesma desinquietação é valida quando o mesmo Relatório destaca que os multimilionários globais capturaram uma parcela desproporcional do crescimento da riqueza global ao longo das últimas décadas: 1% dos mais ricos do mundo capturou 38% de toda a riqueza adicional acumulada desde meados da década de 1990.

Entre nós, compreendo, mas não aceito, a informação constante no interessante estudo sobre a Banca angolana, realizado pela Consultora Deloite (Banca em Análise 2023), segundo o qual o activo total da Banca angolana se estima em 17.037.135 Milhões de Kwanzas (na altura, pouco mais de 25 Mil Milhões de dólares Norte-Americanos), menos de 20% do PIB do País, se considerarmos que o PIB de Angola em 2022 esteve estimado em 122 Mil Milhões USD (Para mais desenvolvimentos sobre os dados macroeconómicos de Angola, vide  Press Release n.º 23/303, IMF Executive Board First Post Financing Assessment). Este indicador revela que o sistema financeiro angolano não está a conseguir capturar e a transformar como poupança a transacionalidade inerente ao PIB do País. O meu sentimento evolui do estágio de inquietação para apoquentação quando verifico que, na vizinha África do Sul, somente os 5 maiores Bancos do país possuem um activo total de 467 Mil Milhões USD, um valor acima do PIB daquele país, que está estimado em cerca de 419 Mil Milhões USD.

Curiosamente, as grandes assimetrias de rendimento no mundo adensaram-se com o surgimento do movimento do neoliberalismo económico, essencialmente traduzido no conceito de Deus Mercado, tendo como fiéis acólitos as instituições de Bretton Woods.

Também não deixa de ser curiosa, importa salientar, a permanente preocupação do Presidente chinês, Xi Jiping, em destacar nos seus discursos a premente necessidade de revisitarmos o modelo económico mundial, numa perspectiva valorativa, quando nos convoca, de forma reiterada, a reflectirmos sobre a “prosperidade comum” (Common Prosperity). A prosperidade comum é actualmente uma preocupação estratégica do Partido Comunista Chinês. Trata-se de uma doutrina ou um traço ideológico tributário da democracia social (wellfare state), com forte inspiração na doutrina cristã, que tem em vista a atender as preocupações e valores como a justiça, equidade, solidariedade, em prol de uma verdadeira agenda de desenvolvimento e progresso.

Termino as minhas elucubrações, sem qualquer conclusão sobre o melhor modelo. Mas confesso que me sinto fortemente tentado. Entretanto, a minha juventude permite-me deixar às conclusões à mercê do tempo. Aliás, a este propósito, termino regressando a Fernando Pessoa: “Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer”.

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