Quanto à taxa de penetração, já vamos pelo terceiro ano consecutivo que estagnou em 0,60%. Que estratégias podem ser implementadas para aumentar o número de pessoas com seguros no país?
É preciso alargar a base. Hoje em dia, em Angola, os seguros estão muito focados num conjunto de empresas que os fazem, mas, depois, não sai daqui, até com uma maior competição fortíssima à volta das mesmas empresas e, inclusive, muitas vezes isso faz baixar o volume de prémios por cada competição até para situações em termos rentabilidade.
Em primeiro lugar, é preciso alargar a base para termos maior penetração e esse número sair do 0,6% porque números aceitáveis vão ser precisos alargar a base, e a economia tem que crescer mais. Não vale a pena a gente enganar-se. O que é que pode ajudar mais para aí. Tudo quanto é seguro obrigatório tem que ser alvo de muita fiscalização, porque isso, inclusive, tem retornos para o Estado e, consequentemente, para a economia.
Olhando para o nosso contexto, não será que a fraca capacidade financeira das pessoas também é uma condicionante para terem acesso aos seguros, uma vez que muitos preferem dar respostas às necessidades básicas?
Não há dúvidas! Pensamos que o País tem que crescer mais, tem que diversificar a economia, mas já ouviu isso em todo lado, todas as pessoas falaram nisso, mas o problema é concretizar. Isso é que tem que começar a acontecer. É essencial o crescimento da economia.
De que forma isso tem afectado as contas da Fidelidade?
Nas contas que estão fechadas (Agosto), o tema da desvalorização cambial pesa-nos 1,2 biliões negativos, de perda cambial, daí ter tido ganhos técnicos robustos, porque, caso contrário, não é suportável. O ganho técnico tem que compensar essas perdas cambiais porque temos um grau de exposição muito grande. Diria que a inflação é a maior preocupação do ano, seguido dos sinistros.
Quais as grandes reformas que devem ser feitas no mercado segurador?
Pensamos que a fiscalização deve funcionar. Então, se há seguros obrigatórios, esta deveria ser uma das bases para nós trabalharmos a nível das seguradoras, porque, por mais que as pessoas tenham a boa-vontade ou discernimento para fazer o seguro, se não há fiscalização, não o farão. Por exemplo, estamos perante uma situação do aumento do salário mínimo, e nós vimos que algumas empresas anunciaram que não podem fazer este aumento, algumas delas são empresas de segurança. Mas o que a gente sabe é que as empresas que contratam empresas de segurança pagam por cada segurança mais do que o salário mínimo. Isso quer dizer que estas empresas que não estão a conseguir pagar o salário mínimo também não vão pagar os seguros. É uma coisa completamente adjacente.
Então, se não formos à base, no sentido de fazermos o cumprimento, também não conseguiremos fazer com que as pessoas tenham sustento, para comer e para viver. Na cadeia daquilo que precisamos a nível de necessidades básicas da vida, os seguros nem estão no top 10, enquanto, em outras geografias, já faz parte da maneira de proceder, além das garantias sociais que há. Em Angola, nós temos menos garantias sociais, daí que o seguro se torna ainda mais essencial.
Fiz aqui este apontamento. Dos 2.026 casos de acidente registados, o Fundo de Garantia Automóvel (FGA) não indemnizou nenhum caso pelo facto de o causador do acidente ser desconhecido. Mesmo arrecadando AOA 1.614 milhões que provém da contribuição de 5% das seguradoras. Esta medida de não indemnizar pelo facto de o causador ser desconhecido divide opiniões entre operadores do mercado. Qual é a sua opinião?
É a regra do jogo, quando o Fundo diz que não indemnizamos é porque a regra diz tem que se saber quem causou o dano. Não foi identificado. Acho que até é uma questão cultural ou uma questão de educação. As pessoas têm que saber como isso funciona. De resto, não deixa de ser bastante preocupante ver 2026 acidentes, com danos corporais, com veículos, e não têm seguros. Isso é que é assustador. Porque estas pessoas não vão ter nenhum apoio.
A Fidelidade prepara novos productos?
Uma coisa que se tem trabalhado nos seguros a nível internacional, mais do que o producto, é oferta. O que eu quero dizer com isso? É tudo aquilo que agrega valor e que podemos propor aos nossos clientes. O que é que temos feito desde o final de 2024: primeiro lançamos o Médico de Família, que é um sistema que, apesar do nome, não é só médicos para as famílias, mas são médicos para fazer um acompanhamento e ajudar muito na prevenção. Grande parte das entidades que contratam os nossos seguros de saúde não são particulares, porque os valores são muito elevados, atendemos a vários tipologias de seguros de saúde, mas nós vemos que o consumo a nível da saúde mais reactivo. Fiquei doente, tive um acidente, então consumi.
Lançamos também o programa Perto de Mim, que são duas unidades instaladas em Luanda e estamos a alargar também para as províncias, no sentido de permitir o acesso a técnicos de saúde para poder fazer as consultas e rotinas e ter também acesso aos nossos médicos através do tele-consultas. E uma última que lançamos o ano passado, que é o Fidelidade Help a Car, um serviço inovador naquilo que é a reparação automóvel…
A mudança de Universal Seguros para Fidelidade Angola foi difícil?
Foi uma decisão que, na época, hesitamos em tomar, porque havia investimento da anterior marca (Universal Seguros), no entanto, foi um passo que decidimos tomar porque houve a criação da entidade em 2011 e, na época, era com a entidade que se chamava Caixa Seguros do Grupo Caixa, mas, quando em Portugal houve o designo da marca, em 2014, houve também esse trabalho de como o grupo Fidelidade quer se apresentar no resto do mundo. Há decisões, por vezes, de não adoptar o mesmo nome e há outras em que é necessário. Portanto, naquela época, epesar dos grandes investimentos feitos na marca anterior, era mais fácil fazermos esta alteração. Lembro-me até de termos feito um estudo, em que diziam que o nome seria uma complicação em Angola, mas posso dizer que, 8 anos mais tarde, tomamos a melhor decisão.
E, também, por trabalhar muitos anos em marketing, a nível cromático, é muito impactante em Angola o vermelho que usamos.
Uma última palavra, para fechar…
A mensagem é que vamos claramente continuar a crescer, temos mais de 100 mil clientes, vamos continuar a crescer no automóvel, já temos mais de 150 mil veículos, e este é o caminho. Queremos ser popular no País todo, com a nossa presença, é outra forma de alargar o mercado de seguros, sair da província de Luanda.
