A educação financeira tem sido, por vezes, vítima de um foco excessivo no topo da pirâmide: o investimento. Ouvimos falar de juros compostos, acções e fundos, como se o ponto de partida fosse sempre um capital robusto à espera de ser multiplicado. Contudo, para a esmagadora maioria dos jovens angolanos, esta narrativa falha em abordar a realidade mais premente: a ausência de capital para investir.
O meu ponto de vista é claro: a alfabetização financeira para a juventude angolana deve começar por uma redefinição de prioridades. O foco não deve ser apenas em como investir o pouco que se tem, mas sim em como gerar o rendimento de que se precisa.
A ideia de que um pequeno montante em dinheiro, investido hoje, garantirá a independência financeira já amanhã é um mito perigoso. A verdadeira acumulação de riqueza através do investimento é um jogo de longo prazo que exige disciplina, consistência e volume. Um investimento único e modesto, por mais rentável que seja, não tem o poder de transformar a vida financeira de um jovem em tempo útil.
Se o único capital que um jovem possui é um valor pequeno, o seu problema não é de rentabilidade, mas sim de rendimento. O primeiro passo lógico e pragmático é, portanto, aumentar a sua capacidade de ganhar dinheiro.
O Investimento mais seguro: competências
O mercado de trabalho formal em Angola, embora em evolução, continua a apresentar desafios estruturais e um acesso restrito para a faixa etária mais jovem. Esta realidade impõe uma mudança de estratégia: o jovem deve olhar para o empreendedorismo e para o freelancing como caminhos viáveis para a acumulação de capital.
Neste contexto, o melhor investimento inicial é em si mesmo. O capital mais valioso que um jovem possui é o seu tempo e a sua capacidade de aprender. O dinheiro deve ser canalizado para a aquisição de competências de alta procura que permitam a prestação de serviços imediatos geradores de rendimento.
Um exemplo são as áreas de Tecnologia da Informação (TI), Análise de Dados, Design Gráfico e Marketing Digital são exemplos de competências que, com um investimento relativamente baixo em formação e ferramentas, podem ser rapidamente convertidas em dinheiro. Estas habilidades não só abrem portas no mercado formal, como também permitem actuar como freelancer, vendendo serviços a pequenas e médias empresas que procuram digitalizar-se e adaptar-se às novas dinâmicas do mercado.
Transformar o conhecimento em renda
A geração de renda pode começar no próprio ambiente académico. O jovem estudante que se destaca numa disciplina pode oferecer explicações e tutorias a colegas, transformando o seu conhecimento em capital. Serviços de apoio académico, como formatação de trabalhos e revisão gramatical, são outras formas de monetizar a excelência académica.
Esta abordagem tem a vantagem de exigir capital inicial zero, apenas o conhecimento já adquirido. É um modelo de negócio flexível que se adapta à rotina de estudos e que, mais importante, reforça o valor do conhecimento.
A verdadeira alfabetização financeira para o jovem angolano é, em última análise, uma questão de mentalidade. É preciso abandonar a mentalidade de escassez (focar-se no pouco que se tem) e adoptar a mentalidade de abundância (focar-se no muito que se pode criar).
Ao investir em competências, o jovem não está apenas a resolver um problema financeiro imediato; está a construir um activo que não pode ser confiscado, desvalorizado ou perdido. Está a posicionar-se como um agente de transformação económica, capaz de gerar valor para si e para a sua comunidade.
A mensagem para os jovens é clara: o seu primeiro milhão não virá de um investimento, mas sim de uma (ou várias) competência (s). Invista em si, gere renda e, só depois, comece a investir o excedente. Este é o caminho mais seguro e mais sustentável para a independência financeira na realidade angolana.