Opinião

Uma nova ambição afro-europeia: prosperidade através da integração económica

Mafinamene Bingana

Economista

31 Dezembro, 2025 - 11:53

31 Dezembro, 2025 - 11:53

Mafinamene Bingana

Economista

A relação económica entre o continente africano e o europeu aproxima-se a um momento decisivo, talvez o mais determinante desde o início das suas interdependências modernas. Durante décadas, as duas regiões alternaram entre discursos de parceria e práticas que reforçavam dependências, entre promessas de cooperação e realidades marcadas por assimetrias profundas. Hoje, porém, o contexto global obriga a um novo reposicionamento. Uma vez que a transição energética, a crescente competição geopolítica e a disputa tecnológica reconfiguram o centro de gravidade do poder económico mundial, empurrando ambos para uma reflexão estratégica. Pelo que não basta falar de ajuda, faz-se necessário falar-se também de complementaridade produtiva, de interdependência inteligente e de ambições industriais partilhadas.

As recentes cimeiras UA vs UE já sinalizam essa viragem. Prosperidade deixa de ser um destino longínquo e passa a depender de escolhas políticas precisas, de reformas estruturais e de uma visão capaz de reconhecer que, num mundo multipolar, nenhum país/bloco/continente pode progredir de forma isolada. É imperioso compreender que África e Europa precisam de pensar e serem pensados como blocos integrados, com interesses cruzados e desafios convergentes.

A Europa enfrenta, hoje, um ambiente de competição feroz. O dinamismo industrial asiático, o domínio tecnológico dos Estados Unidos e a corrida global por matérias-primas estratégicas colocam o continente europeu perante uma escolha inevitável: “reinventar-se” ou “resignar-se” a uma perda de relevância. Diversificar parcerias, garantir acesso seguro a recursos críticos e assegurar mercados em expansão deixou de ser opção e tornou-se imperativo.

Ao mesmo tempo, África encontra-se numa encruzilhada única. O continente reúne a população mais jovem do mundo, consideráveis reservas de recursos naturais, acelerada taxa de urbanização e um mercado de perto de dois mil milhões de consumidores. Mas, tal potencial convive com persistentes desafios estruturais, insuficiente nível de industrialização, considerável exposição a vulnerabilidades climáticas, cadeias de valor fragmentadas e desigualdades históricas. Converter possibilidades em desenvolvimento real exige alianças sólidas e investimento produtivo de longo prazo.

É precisamente aqui que surge a oportunidade de uma verdadeira agenda económica afro-europeia. Não uma relação assente em conveniências de curto prazo, mas uma parceria que aproxime os dois continentes por meio de objectivos industriais comuns, partilha tecnológica e criação de valor para as duas partes. Para tal, torna-se imperiosa a materialização de três pilares essenciais:

  1. Comércio equilibrado, que privilegie a transformação local: É fundamental que as relações económicas e comerciais entre África e Europa deixem para trás o padrão extractivista, pois o modelo assente na exportação de matérias-primas (de África para Europa) e importação de bens de alto valor agregado (da Europa para África) perpetua uma hierarquia económica que maximiza única e exclusivamente os benefícios de uma das partes (Europa). Faz-se necessário, também, incentivar o surgimento/exploração de cadeias de valor africanas, oferecer aos países africanos acesso justo aos mercados europeus e promover a exportação de produtos transformados. A Europa também ganha com isso, as cadeias de abastecimento mais estáveis, diversificadas e próximas, essenciais num cenário global volátil.
  2. Investimento produtivo robusto: A integração verdadeira exige capital estratégico, não promessas vazias. É imperativo investir em energia limpa, em infra-estruturas de transporte que liguem centros industriais a mercados regionais, em digitalização e em agroindústria capaz de transformar a segurança alimentar africana numa alavanca de exportação. Quando o investimento deixa de ser visto como caridade e passa a ser encarado como oportunidade bilateral, a relação ganha maturidade e sustentabilidade.
  3. Infra-estruturas que integrem mercados regionais de forma funcional: A integração regional africana é condição sine qua non para qualquer parceria sólida, pois estradas que terminam em fronteiras, ferrovias desenhadas apenas para escoar recursos e sistemas energéticos desconectados não são compatíveis com a ambição industrial do continente africano no século XXI. A Europa pode desempenhar um papel central no apoio à construção de corredores de transporte, redes energéticas regionais, plataformas digitais interoperáveis e mecanismos aduaneiros harmonizados. Quando África negocia como bloco, multiplica-se a sua capacidade de atrair investimento e negociar condições mais justas.

Construir esta nova “perspectiva” de/nas relações bilaterais entre os dois continentes exige romper com narrativas paternalistas que marcaram relações do passado. Por um lado, faz-se necessário, por parte dos parceiros, tratar África como um actor geoeconómico decisivo (que de facto é…), ao passo que, por outro lado, o continente africano precisa tanto de fortalecer as suas instituições e aprofundar a sua integração quanto confiar no seu próprio potencial transformador. A parceria afro-europeia é menos um idealismo e mais uma necessidade estratégica, ditada pela realidade de um mundo em transição, onde recursos/energia/ tecnologia se tornaram o novo campo de disputa global.

É urgente a construção de uma nova perspectiva de/nas relações afro-europeia, que, sobretudo, seja mutuamente vantajosa, pois, se África e Europa forem capazes de transformar esta visão em políticas concretas e investimentos reais, será inaugurado um novo capítulo histórico: o capítulo da prosperidade construída e não prometida, partilhada e não imposta.

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