Em Novembro de 1976, no quadro das transformações político-económicas que se vinham realizando após a proclamação da independência nacional, o governo angolano confiscou o activo e o passivo do Banco de Angola e criou o Banco Nacional de Angola (BNA), tendo em atenção a importância do sistema monetário e financeiro para o país.
Em Dezembro do mesmo ano, Ismael Gaspar Martins é nomeado para dirigir o Banco Central, tornando-se no seu primeiro Governador. Este, por sua vez, convida Humberto de Almeida, um quadro do Ministério das Finanças, para ser o seu vice-Governador.
No entanto, para colocar o motor a funcionar, o passo seguinte seria a constituição de uma equipa de directores altamente qualificados e com certa formação e experiência de trabalho na banca, integrada sobretudo por quadros que tinham permanecido em Angola. E Mário Abílio Palhares, juntamente com António Inácio (governador do BNA, 1989 a 1990), João Abel das Neves (governador do BNA, 1990-1991), Cunha Neto (governador do BNA, 1990), Álvaro Craveiro (ministro das Finanças entre 1994 e 1995), Mário Pizarro (vice-governador do BNA, 1982 a 1986), Marinela Amaral, João Jardim, Fernando Peres do Amaral, Germano Amaral, e Mário Nelson, eram alguns desses nomes que compunham a primeira equipa de directores.
A caminhada de um “dinossauro” da banca

Com um historial de serviço público no sector financeiro, iniciado no Banco de Angola, ainda sob gestão do regime colonial português e, mais tarde, no Banco Nacional de Angola, após a proclamação da independência, Palhares passou por diversos departamentos da instituição regulatória e monetária até chegar à posição de vice-governador, um ano antes do advento do multipartidarismo, em Dezembro de 1991.
A sua ascensão no board do Banco Central dá-se num momento particularmente decisivo da economia nacional, período em que se assiste ao desejo da banca portuguesa em retomar as suas operações em Angola, tendo em conta os sinais de abertura de uma economia centralizada/Estado para uma economia de mercado. Total & Açores, Nacional Ultramarino e Banco Português do Atlântico foram os primeiros a dar sinal.
Com a reinstalação da banca privada portuguesa em Angola, tendo o Banco Totta e Açores dado o primeiro passo, inaugurando a sua Sucursal em 1993, um grupo de nacionalistas decide entrar no negócio da banca. Os precursores desta ideia respondem pelos nomes de Desidério Costa, então ministro dos Petróleo, e Joaquim David, à época presidente da Sonangol.
Do papel à prática, três conhecidos banqueiros foram peças fundamentais: José de Castro Paiva, Mário Abílio Palhares e José Garcia Boyol.
Foi assim que, 3 anos depois das primeiras eleições multipartidárias, ocorridas em Setembro de 1992, a 14 de Novembro de 1996 nascia o Banco Angolano de Investimentos (BAI), com a denominação de Banco Africano de Investimentos, constituindo-se, desta forma, na primeira entidade bancária de capitais inteiramente angolano.
Num testemunho alusivo aos 25 anos do BAI, Palhares recordou aquele período: “Foram iniciados vários contactos internos e externos, tendo sido identificado um grupo de individualidades angolanas, o Investec Bank e algumas empresas para integrarem o capital social, maioritariamente angolano, sendo relevante o trabalho desenvolvido pelo Sr. José Paiva no contacto com alguns dos investidores”.
Depois de cumprido todos os trâmites regulatórios e operacionais, a primeira instituição bancária de capitais privado angolano foi inaugurada com Aguinaldo Jaime na presidência do Conselho de Administração e Mário Palhares na vice-presidência, funções assumidas entre Novembro de 1997 a Maio de 1999. Nesta data, Aguinaldo é chamado a assumir funções de governador do BNA, e, em consequência, Palhares assume a presidência do banco até 2002.
Entretanto, após cessar funções no BAI, o banqueiro surge como principal accionista do Banco de Negócios Internacional (BNI), que viria a obter autorização regulatória para a sua constituição em Dezembro de 2005, e arranque efectivo em Novembro de 2006. O primeiro órgão de gestão contou com José Boyol na vice-presidência, e como administradores executivos Ricardo Viegas D’Abreu, Luís Pisoeiro, e Carlos Rodrigues. Arnaldo Calado e Welwitschia dos Santos “Tchizé” assumiram a posição de administradores não executivos.
Três anos depois, isto em 2009, o BNI dava os primeiros sinais de expansão para o mercado português, embora a sua efectivação viria a acontecer apenas em 2014, com a inauguração, em Junho, da primeira agência em Lisboa do BNI Europa, que, actualmente, tem como accionista único o BNI Angola, cujo beneficiário efectivo é Mário Palhares, de acordo com o Relatório & Contas de 2024.
Quatro anos depois de iniciar operação em Portugal, em 2019, Palhares viu-se obrigado e desdobrar-se em tentativas para encontrar um comprador do BNI Europa, em decorrência das novas regras da indústria. Deste então, foram três tentativas, com os chineses da KWG, os espanhóis da Altarius Capital e, recentemente, com o falido brasileiro Banco Master.
Em Angola, a sorte foi diferente: Palhares conseguiu conduzir uma das transacções mais bem-sucedidas para a estabilidade do sistema financeiro doméstico, evitando uma intervenção do regulador ante as cíclicas turbulências que o banco vinha apresentando nas contas. Fechou com a gigante Gemcorp Capital, através da sua gestora de activos a Kassai Capital, a venda de 70% do BNI.
Com esta transacção, o banqueiro de 77 anos (a complementar dentro de dois meses), que conta com o histórico de ter conduzido o processo de instalação do maior banco em activo, e participado na fundação de três bancos, sendo dois privados e o ex-estatal Banco de Comércio e Indústria (BCI), além de ter sido o segundo maior accionista (35%) do ex-Finibanco Angola (Access Bank Angola), sairá pelas portas de frente. Um banqueiro discreto, calculista e com uma trajectória marcada por aquisições, controlo financeiro, grandes corporações e até influência no modelo de governança bancária nos dias de hoje.