Opinião

UNITEL na bolsa: está a comprar uma operadora — ou a participação num banco?

Lutonádio Sebastião

Capital Market and Security Analist

8 Julho, 2026 - 07:16

8 Julho, 2026 - 07:16

Lutonádio Sebastião

Capital Market and Security Analist

O preço da maior privatização de sempre em Angola já é conhecido. E, ao contrário do que parece, é agora que a análise fica interessante.

Durante meses, a pergunta que pairava sobre a entrada da UNITEL na bolsa foi sempre a mesma: por quanto? O anúncio de lançamento veio finalmente responder. As acções serão vendidas num intervalo entre 36.036 e 40.040 kwanzas cada, entre 6 e 24 de Julho, com estreia na BODIVA prevista para 29 de Julho. Feitas as contas, o Estado avalia a totalidade da UNITEL entre 1,8 e 2 biliões de kwanzas e espera encaixar, pelos 15% que coloca à venda, algo entre 270 e 300 mil milhões.

Revelado o preço, meia imprensa correu a fazer a aritmética do encaixe. É a conta fácil. A difícil — a que separa o investidor do espectador — só começa agora. Porque o preço responde a «quanto». A pergunta que fica por responder é «o quê».

Ao ponto médio da banda, a UNITEL entra em bolsa avaliada em cerca de doze vezes os lucros de 2025 e a pouco mais de duas vezes o seu valor contabilístico. Para a maior operadora do país, com margem líquida de 31% e receitas a crescerem mais de 30% ao ano, não é um preço de saldo, mas também não é um disparate. Um investidor apressado arruma o assunto aqui e subscreve.

O investidor atento faz uma pergunta a mais: de onde vem, afinal, esse lucro?

E é aqui que o retrato se complica. Em 2025, a UNITEL gerou 505 mil milhões de kwanzas em receitas e um resultado operacional de 66 mil milhões — uma margem operacional de uns modestos 13%. Só que o lucro líquido foi de 158 mil milhões. Por outras palavras: o resultado da operação de telecomunicações representou menos de 42% do lucro final da empresa. O resto veio de fora da rede — juros, ganhos cambiais e, acima de tudo, os dividendos da participação de 36,9% que a UNITEL detém no Banco de Fomento Angola. O próprio prospecto admite, sem rodeios, que esses dividendos valeram mais de 30% do lucro líquido nos últimos três anos.

Traduzindo para linguagem de mercado: ao preço da oferta, a rede de telecomunicações — as antenas, os clientes, os dados, aquilo que a UNITEL efectivamente faz — está a ser avaliada em 27 a 30 vezes o resultado operacional, e isto ainda antes de impostos. O múltiplo agregado de «doze vezes» que parece razoável só é razoável porque lá dentro vem um banco e um conjunto de ganhos financeiros a puxá-lo para baixo.

Não é um defeito escondido; está tudo escrito. Mas muda a natureza da decisão. Quem compra UNITEL não compra apenas uma operadora — compra um pequeno conglomerado cuja rentabilidade depende, em boa parte, do desempenho de um banco e de rubricas que podem não se repetir com a mesma força. A pergunta certa não é «a telecom vale isto?». É «quanto estou disposto a pagar pela telecom, e quanto pelo banco que vem agarrado a ela?».

A sombra dos 249 mil milhões

Há, depois, o passivo que ninguém gosta de referir nos anúncios, mas que está preto no branco nas contas. A UNITEL arrasta cerca de 249 mil milhões de kwanzas em dividendos antigos por pagar, acrescidos de juros, o equivalente a 28% dos seus capitais próprios. A origem está nas nacionalizações das participações da Vidatel e da Geni, em 2022. O prospecto reconhece dois riscos incómodos: o de os termos dessa dívida virem a ser contestados, alterando o valor devido; e o de uma exigência de pagamento concentrada no tempo poder ter, nas palavras do documento, «impacto material adverso» na tesouraria. Para uma acção que muitos vão comprar a sonhar com dividendos, é uma nuvem que se recusa a ir embora, sobretudo porque a empresa entra em bolsa sem sequer uma política de dividendos aprovada.

Uma oferta sem rede de segurança

Vale ainda ler as três linhas que separam esta operação de um IPO convencional. Primeiro: não há tomada firme nem garantia de colocação. Se a procura faltar, o risco é todo do mercado, e a oferta apenas se concretiza na medida das acções efectivamente vendidas. Segundo: não existe período de bloqueio. Nada impede vendas no dia seguinte à estreia — e convém lembrar que 85% do capital continua nas mãos do Estado, à espera de futuras colocações que podem pressionar a cotação. Terceiro: sem notação de risco e sem qualquer histórico de negociação, o preço em mercado terá de ser descoberto do zero, num pregão ainda jovem e de liquidez por provar.

O que joga a favor

Nada disto faz da UNITEL um mau activo, e seria desonesto sugeri-lo. É líder incontestada, com 73% do mercado móvel. Cresce. Tem margens que a maioria das operadoras africanas inveja. As contas dos últimos três anos passaram pela auditoria sem uma única reserva, a dívida financeira é baixa e a empresa senta-se sobre mais de 338 mil milhões em caixa. É, por qualquer critério, uma das jóias do tecido empresarial angolano, e a sua chegada à bolsa é um acontecimento genuíno para a poupança nacional e para o amadurecimento da BODIVA.

O veredicto

Mudou a pergunta, não mudou a exigência. Enquanto o preço era um mistério, a crítica fácil era «não dá para avaliar». Agora que o preço se conhece, a crítica honesta é outra: a doze vezes os lucros, o investidor está a pagar um múltiplo confortável por um conjunto que inclui um banco, ganhos cambiais e uma operação de telecomunicações que, isolada, custa bem mais caro do que aparenta. Some-se a sombra dos 249 mil milhões, a ausência de rede de colocação e o silêncio quanto a dividendos, e o quadro fica completo.

A UNITEL é, provavelmente, o activo mais importante alguma vez oferecido ao investidor angolano. Precisamente por isso merece ser comprado com os olhos abertos, não pelo brilho do nome, nem pela pressa do encaixe, mas por quem tenha feito a única conta que realmente importa: a de saber o que está, de facto, do outro lado do preço.

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