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“Não à Guerra”. Jornalista russa conta como conseguiu fugir para o Ocidente

11-02-2023 6:44

DN

11-02-2023 6:44

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Marina Ovsyannikova, que apareceu na televisão russa com um cartaz contra a guerra na Ucrânia, deixou a Rússia uma semana antes do seu julgamento, numa fuga digna da Guerra Fria

Fuja, salve a sua vida”, aconselhou-lhe o próprio advogado. E Marina Ovsyannikova assim fez. Na noite do primeiro dia de outubro, uma semana antes de começar a ser julgada por criticar a invasão da Ucrânia, a jornalista russa – que ganhou fama mundial por aparecer numa emissão em direto de uma televisão estatal russa com um cartaz a dizer “Não à Guerra” – pegou na filha e fugiu para a fronteira.

“Temo pela minha vida”, admitiu Ovsyannikova esta sexta-feira, em Paris, onde encontrou refúgio, contando a odisseia que foi a sua fuga de Moscovo com a ajuda da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF).A jornalista, que usava uma pulseira eletrónica e deveria estar em prisão domiciliar, diz que foi o medo o que a levou a deixar o país. Ameaçada com dez anos de prisão, acusada de espalhar informações falsas sobre as Forças Armadas russas, o aviso do advogado deixava pouca margem de esperança na justiça russa.Marina deixou Moscovo no início do primeiro fim de semana de outubro, num altura em que acreditava que a polícia estaria menos ativa, e trocou de carro sete vezes até cruzar a fronteira a pé.

“O nosso último veículo ficou preso na lama e não tínhamos cobertura de rede móvel – tentámos encontrar o nosso caminho pelas estrelas. Foi uma fuga muito perigosa e stressante”, revelou, em conferência de imprensa em Paris, citada pela BBC

No seu relato, a jornalista não deu detalhes sobre qual a fronteira que atravessou nem outras informações que pudessem colocar em risco as pessoas que a ajudaram.

Contou, sim, que os nervos eram tantos que se esqueceu de retirar a pulseira eletrónico, tendo-se libertado dela apenas na segunda troca de veículo durante a fuga.

Também presente na conferência, o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire, disse que a fuga foi uma reminiscência das fugas no muro de Berlim durante a Guerra Fria e realçou que a escapada da jornalista não foi organizada por nenhum serviço secreto ocidental.

“Escrevi a minha primeira mensagem de texto para Marina um dia depois de ela ter aparecido na TV com aquele cartaz”. “Mandei uma mensagem a perguntar: precisa de ajuda? Estamos aqui para ajudar.”

Em setembro passado, Ovsyannikova enviou então uma mensagem à RSF através de um intermediário, a pedir ajuda para sair da Rússia. “Nós dissemos, OK”, explicou Deloire. “[Mas] ela estava em Moscovo em prisão domiciliar, os seus vizinhos e familiares são Putinistas, poderiam denunciá-la à polícia, e ela tinha uma pulseira eletrônica. Portanto, havia muitas razões para ser incrivelmente difícil de escapar. Mas felizmente conseguiu.”

Após o episódio da exibição do cartaz na emissão em direto, em março passado, Ovsyannikova deixou a Rússia pela primeira vez para trabalhar no jornal alemão Die Welt. Em julho, voltou a Moscovo, onde continuou a opor-se à guerra e foi detida.

Agora estabelecida em Paris, a jornalista de 44 anos diz que ainda “teme pela vida”, mas acredita que o presidente russo, Vladimir Putin, está a arriscar a sua liderança na guerra na Ucrânia. E defende que a comunidade internacional aumente a ajuda militar a Kiev, já que uma paz baseada em conquistas territoriais para a Rússia só legitimaria os planos expansionistas de Putin e o seu poder.

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