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Só 10% dos europeus acredita que a Ucrânia vai ganhar a guerra à Rússia

Diário de Notícias

21 Fevereiro, 2024 - 12:10

Diário de Notícias

21 Fevereiro, 2024 - 12:10

Sondagem do European Council on Foreign Relations (ECFR) indica que nos 12 países europeus estudados a opinião mais predominante (partilhada por 37%, em média) é a de que se chegará a um acordo de compromisso entre a Ucrânia e a Rússia. Portugal está entre os Estados-membros mais otimistas com o desfecho do conflito

Apenas 10% dos europeus acredita que a Ucrânia vai ganhar à Rússia. Esta é uma das principais conclusões da sondagem realizada pelo European Council on Foreign Relations (ECFR), divulgada esta quarta-feira, a poucos dias de se assinalar os dois anos da guerra na Ucrânia, o que acontece já no próximo sábado.

Os dados recolhidos em 12 países europeus, entre os quais Portugal, mostram que há um pessimismo crescente na Europa em relação ao desfecho do conflito, que está em curso desde 24 de fevereiro de 2022.

Receia-se que a possível vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas deste ano torne “menos provável” uma vitória ucraniana, refere outra das conclusões do relatório “Wars and Elections: How to European leaders can maintain public support for Ukraine [Guerras e Eleições: como é que os líderes europeus podem manter o apoio público à Ucrânia]”, da autoria dos politólogos Ivan Krastev e Mark Leonard.

“Em média, apenas 10% dos inquiridos nos doze países acreditam agora que a Ucrânia triunfará sobre a Rússia, enquanto o dobro (20%) antecipa uma vitória russa no conflito”, lê-se nas principais conclusões do relatório, feito com base nos dados de opinião recolhidos em janeiro deste ano em 12 países da União Europeia.

Portugal entre os países em que se acredita mais numa vitória da Ucrânia: 17%, como na Polónia e Suécia

Esta diminuição da confiança no esforço de guerra ucraniano “é visível em toda a Europa e, até mesmo nos Estados-membros mais otimistas entre os inquiridos (Polónia, Suécia e Portugal), menos de um em cada cinco (17%) acredita que Kiev pode vencer”.

Nos 12 Estados-membros da União Europeia estudados, a opinião mais predominante (partilhada por 37%, em média) é, no entanto, a de que se chegará a um acordo de compromisso entre a Ucrânia e a Rússia.

Para os autores do estudo, esta mudança de opinião é motivada pelos poucos progressos da contraofensiva militar ucraniana, “pela crescente preocupação com uma mudança de política dos EUA e pelo que a possível reeleição de Donald Trump poderá implicar no esforço de guerra”.

Revelam as conclusões do relatório que, caso Trump volte a ganhar as eleições, há uma percentagem significativa de inquiridos a acreditar que a Europa deve manter ou “aumentar” o seu nível de apoio a Kiev.

Mas, para manter o apoio público à Ucrânia, os líderes da UE devem apresentar uma narrativa realista e estabelecer uma distinção entre uma “paz negociada” e uma “paz nos termos da Rússia”, defendem Ivan Krastev e Mark Leonard.

Este novo relatório do ECFR tem como base os dados de opinião pública recolhidos pela YouGov e pela Datapraxis em 12 Estados-membros da UE (Alemanha, Áustria, Espanha, França, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal, Roménia e Suécia), em janeiro de 2024.

Os dados analisados mostram que o apoio à Ucrânia é amplo na Europa, embora haja países onde a maioria preferiria pressionar Kiev a aceitar um acordo. “Em três países – Suécia, Portugal e Polónia –, há uma preferência pelo apoio à Ucrânia na reconquista do seu território (50%, 48% e 47%, respetivamente)”.

“Em cinco outros países – entre os quais a vizinha Hungria (64%), a Grécia (59%), a Itália (52%), a Roménia (50%) e a Áustria (49%) – existe uma preferência clara por pressionar Kiev a aceitar um acordo”, lê-se nas conclusões do relatório que acompanha a sondagem.

A opinião pública encontra-se, no entanto, dividida em países como a “França (35% pela reconquista do território contra 30% pela negociação de um acordo), na Alemanha (32% contra 41%), nos Países Baixos (34% contra 37%) e em Espanha (35% contra 33%)”.

Há muitos cidadãos europeus que consideram que a guerra na Ucrânia é existencial para a Europa. Quando questionados “sobre qual o conflito, guerra entre Israel e o Hamas e a guerra na Ucrânia, que teve mais impacto ‘no seu país’ e ‘na Europa’, 33% e 29%, respetivamente, selecionaram a Ucrânia”.

“Estes números contrastam com a percentagem de 5%, comum a ambas as opções, que selecionaram o conflito em Gaza. Estes dados sugerem que os europeus estão cada vez mais a interpretar a guerra na Ucrânia, e o seu resultado, como regionalmente significativa e pela qual são responsáveis”, segundo a nota sobre os resultados da sondagem.

O possível regresso de Donald Trump à Casa Branca e o impacto deste resultado eleitoral na guerra na Ucrânia foi um dos temas abordados neste estudo. Entre os cidadãos europeus inquiridos na sondagem do ECFR, 56% ficariam “bastante dececionados” ou “muito dececionados” se Trump fosse reeleito presidente dos EUA.

“A única exceção a esta opinião foi a Hungria. Neste país, 27% indicaram que ficariam ‘satisfeitos’ com este resultado, enquanto apenas 31% disseram que ficariam ‘dececionados'”.

Dados mostram ainda que, em média, 43% dos europeus pensam que uma segunda presidência de Trump tornará “menos provável” uma vitória ucraniana, enquanto apenas 9% expressaram uma opinião contrária.

No que se refere à ajuda a Kiev, “em média, 41% dos europeus consideram que a UE deveria ‘aumentar’ ou ‘manter’ o seu apoio à Ucrânia relativamente aos níveis atuais, no caso de retirada norte-americana do apoio sob uma liderança de Trump”.

“Embora apenas uma minoria (20%) dos europeus aumentasse o apoio à Ucrânia para compensar uma retirada dos EUA, 21% indicaram que preferiam manter o nível de apoio inalterado. Um terço dos inquiridos (33%) preferiria que a UE seguisse os EUA na limitação do apoio”, referem as conclusões da sondagem.

Europeus não se encontram num “estado de espírito heroico”, nem sequer otimistas, dizem autores do relatório

Perante estes resultados, os autores do relatório que acompanha a sondagem referem que, dois anos depois, os europeus não se encontram num “estado de espírito heroico”, nem sequer otimistas relativamente à situação na Ucrânia.

Ainda assim, consideram que o empenho dos europeus em impedir uma vitória russa não se alterou. “É também sustentado por uma posição pública mais alargada de que, mesmo que os EUA viessem a retirar o seu apoio à Ucrânia, a UE deveria ‘manter’ ou ‘aumentar’ o seu apoio a Kiev”, indicam as conclusões do documento.

Tendo em conta a degradação da confiança pública sobre o desfecho da guerra e a manutenção do apoio a Kiev para impedir uma vitória russa, Krastev e Leonard consideram que “o desafio para os decisores políticos ocidentais será definir o que é uma ‘paz justa’ e estabelecer uma narrativa que impeça Trump – e Vladimir Putin – de se apresentarem como defensores da paz num conflito que ainda se encontra longe de estar decidido”, refere a nota sobre o realtório, que, além de querer compreender a atual estado da opinião pública sobre a Ucrânia, pretende “apresentar uma estratégia sobre a melhor forma de os líderes da UE defenderem o apoio europeu a Kiev num ambiente mais difícil”.

“Com o objetivo de se defender a continuação do apoio europeu à Ucrânia, os líderes da UE terão de alterar a forma como falam sobre a guerra. A nossa sondagem mostra que a maioria dos europeus está desesperada por impedir uma vitória russa. Porém, também não acreditam que a Ucrânia seja capaz de recuperar todo o seu território. O argumento mais persuasivo para um público cético é que o apoio militar à Ucrânia pode levar a uma paz duradoura e negociada que favoreça Kiev, em vez de uma vitória de Putin”, considera Mark Leonard, coautor do relatório e diretor fundador do ECFR.

Já Ivan Krastev, outro dos autores do documento e presidente do Centro de Estratégias Liberais, em Sófia, acrescenta que “o grande perigo é que Trump e Putin, que deu a entender que está aberto a negociações, tentem retratar a Ucrânia (e os seus apoiantes) como defensora de uma ‘guerra eterna’ enquanto os primeiros reivindicam o manto da ‘paz'”.

Para este especialista, “uma vitória russa não será sinónimo de paz”.

“Se o preço para acabar com a guerra for transformar a Ucrânia numa ‘terra de ninguém’, a derrota não será apenas para Kiev, mas para a Europa e a sua segurança. Agora que Moscovo defende negociações, é importante que tanto o público ucraniano como o ocidental saibam o que não é negociável no que diz respeito ao futuro da Ucrânia. Do ponto de vista ocidental, o que não é negociável é a escolha democrática e pró-ocidental da Ucrânia”, considera Krastev.

De referir ainda que este relatório baseia-se numa sondagem de opinião pública à população adulta (com idade igual ou superior a 18 anos) realizada em janeiro de 2024 em 12 Estados-membros da União Europeia, sendo que o número total de inquiridos foi de 17 023. Para este projeto, ECFR, um grupo de reflexão (think thank) pan-europeu, trabalhou em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.

NOTA:

O DN escreve seguindo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, adoptado em definitivo por Portugal.

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