Opinião

Kâmia Madeira

Licenciada em História pela Universidade de Coimbra

08-04-2024 10:34

08-04-2024 10:34

Kâmia Madeira

Licenciada em História pela Universidade de Coimbra

As datas históricas mais do que momentos de celebração ou fortalecimento da memória colectiva servem também para ensinar e perpetuar o que vamos aprendendo.

Enquanto sociedade cai-nos bem, um fim-de-semana prolongado mesmo que se critique o nível de produtividade e eficiência nacional.

Mas esta não é uma crónica que visa analisar o impacto dos dias de repouso na nossa economia, quero debruçar-me sobre o modo como olhamos para a nossa história e as lições que retiramos da mesma.

Tenho muita dificuldade em entender as opiniões que posso apelidar de “entrincheiradas” as pessoas posicionam-se e ora argumentam que estes vinte e dois anos representam maravilhas e benesses ou ao contrário só vêm dificuldades e retrocessos, como ouvi um comentador de uma das nossas rádios dizer: “com a paz deram-se dois passos à frente e quatro atrás…” devemos respeitar a opinião alheia, mas será que só podem existir duas leituras?

Penso que por vezes a virtude poderá estar no meio termo, que me perdoem os que consideram que ser o Humpty Dumpty da Alice no País das Maravilhas é um mau presságio, mas reafirmo que nem sempre devemos analisar as situações pela lupa do preto e do branco, com tantas tonalidades de cinzento….

Após 22 anos existem sim mudanças significativas, de infraestruturas, económicas, políticas e sociais e algo de errado se passaria se as mesmas não fossem reais, contudo o que nos deve nortear é se estas satisfazem todos os cidadãos e que prespectiva de futuro temos.

Os jovens nascidos em 2002 quando questionados reconhecem a importância da data e os ganhos alcançados, mas não se relacionam, apreciam o facto de viverem num país estável, se compararmos com alguns dos nossos irmãos de continente, mas as suas preocupações prendem-se com a melhoria das condições de vida, oportunidades de emprego condignas, possibilidade de acesso à habitação ou a melhoria da educação.

Será que nestes 22 anos estamos a plantar em solo fértil para fortificar estes anseios?

A procura de vida melhor no estrangeiro, que impulsiona a partida de inúmeras famílias não é também motivo de preocupação?

Já lá vai o mês da Mulher e em pleno mês da Paz, serão dinamizados, workshop’s, Colóquios, Conferências e Debates alusivos ao tema, mas para petizes e graúdos a preocupação é que depois deste prolongado o próximo será só em setembro….

De que modo podemos criar momentos de partilha e valorização da memória?

Talvez nas escolas, dinamizando visitas onde os antigos combatentes contam as suas histórias? Talvez com reportagens/programas especiais onde não se politiza e apenas se informa? Ou quem sabe nas nossas casas, aproveitando o tempo em família para conversar e ensinar os nossos filhos?

Exigimos, argumentamos, opomo-nos e criticamos e nas nossas pequenas bolhas, alimentadas pelas redes socais e pelo algoritmo cavamos cada vez mais fundo as trincheiras da “nossa razão e verdade” onde há pouco ou quase espaço nenhum para a diversidade e opinião contrária. Onde em modo automatizado nos vamos entorpecendo com as fofocas que no fim são golpes publicitários ou nos indignamos com as imagens de buracos e inundações que se partilham à velocidade da luz…

É bom sermos um país em paz, mas melhor seria que a resolução dos problemas do povo, não fosse apenas um chavão que se vai gastando à medida que os anos passam e que em mais uma data histórica fizéssemos uma reflexão conjunta sobre quem somos e o que nos une sem pompa e circunstância, mas com a vontade de garantir que o futuro deve ser algo que motiva e engaja a todos.

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