Opinião

Angola precisa de uma bolsa maior ou de um mercado que financie mais empresas? ‎

Gelson Yangui

Analista dos Mercados Financeiros e do Mercado de Capitais, com foco em Finanças, Investimentos, Gestão de Activos e Financiamento Empresarial.

4 Novembro, 2026 - 11:42

4 Novembro, 2026 - 11:42

Gelson Yangui

Analista dos Mercados Financeiros e do Mercado de Capitais, com foco em Finanças, Investimentos, Gestão de Activos e Financiamento Empresarial.

Há mais de duas décadas, o lendário investidor norte-americano Warren Buffett popularizou um indicador macroeconómico elementar, mas profundamente relevante: o Rácio de Buffett, expresso pela divisão entre a Capitalização Bolsista e o Produto Interno Bruto (PIB).

Quando o valor total das empresas cotadas numa bolsa (Capitalização Bolsista) se aproxima ou supera a riqueza gerada pelo país (uma percentagem ideal próxima ou superior a 100%), o mercado de capitais é considerado um motor fulcral de financiamento e desenvolvimento. A sua interpretação exige, contudo, uma ressalva: uma bolsa de maior dimensão não significa, necessariamente, uma economia bem financiada pelo mercado de capitais. O rácio mede, sobretudo, a dimensão relativa do mercado accionista, não o volume de recursos efectivamente canalizados para as empresas. É precisamente esta distinção que torna a sua aplicação a Angola particularmente interessante.

Uma bolsa ainda pequena perante a dimensão da economia

A recente capitalização do Mercado de Bolsa de Acções (MBA) da BODIVA (Bolsa de Dívida e Valores de Angola) fixou-se na ordem dos 5,71 biliões de kwanzas. Em contrapartida, os dados mais recentes do INE (Instituto Nacional de Estatística) revelam que o PIB nominal do país atingiu os 43,43 biliões de kwanzas no segundo trimestre de 2026. Feitas as contas, o Rácio de Buffett para o mercado accionista angolano situa-se, actualmente, em 13,15%. Esta percentagem faz-nos  pensar. Por um lado, o indicador afasta-nos dos padrões registados em economias maduras. Mercados como Taiwan ultrapassam os (300%), os Estados Unidos (237%) e o Reino Unido (94%), onde a bolsa é, também, um  principal oxigénio das empresas, permitindo-lhes captar poupanças directamente junto dos investidores para financiar a sua expansão,  inovação e criação de emprego. Em Angola, o cenário actual demonstra que o tecido empresarial ainda depende de forma esmagadora do crédito bancário tradicional e do investimento público directo. Um rácio de 13,15% não constitui, isoladamente, um diagnóstico de fracasso. É um sinal de que o mercado accionista angolano está relativamente reduzido face à economia nacional e de que existe espaço para aprofundar a participação das empresas e dos investidores no mercado de capitais.

Financiar o Estado não é o mesmo que financiar as empresas

A trajectória da BODIVA ajuda a compreender uma das características centrais do sistema financeiro angolano: a importância histórica do mercado de dívida pública.

As Obrigações do Tesouro e outros instrumentos de financiamento do Estado desempenham uma função legítima e necessária. Permitem mobilizar recursos para responder às necessidades de financiamento público e oferecem aos investidores alternativas de aplicação das suas poupanças. Contudo, a dimensão do mercado de dívida pública não deve ser confundida com a capacidade do mercado accionista para financiar o sector empresarial.

Esta diferença é fundamental

Quando uma empresa realiza uma Oferta Pública de Subscrição (OPS), pode captar novos recursos junto dos investidores para financiar a expansão da actividade, investir em tecnologia, reforçar a capacidade produtiva ou entrar em novos mercados. Quando as suas acções são posteriormente negociadas no mercado secundário, a operação proporciona liquidez aos investidores e contribui para a formação de preços, embora os recursos da transacção sejam normalmente recebidos pelo accionista vendedor, e não pela empresa. Assim, um mercado secundário activo pode tornar o financiamento empresarial mais atractivo, mas não substitui a captação de capital no mercado primário.

‎A distinção permite formular uma questão que vai além dos volumes negociados: quantas empresas angolanas conseguem utilizar o mercado de capitais para financiar investimentos que, de outra forma, dependeriam exclusivamente dos capitais próprios, do crédito bancário ou do investimento público?

É nesta capacidade de ampliar as alternativas de financiamento que reside uma parte essencial do potencial transformador do mercado de capitais.

O PROPRIV e a oportunidade de alargar o mercado

Para que o mercado de capitais se transforme num verdadeiro motor da economia angolana, o Rácio de Buffett deve expandir-se por via orgânica. O Estado angolano está a fazê-lo através do Programa de Privatizações (PROPRIV). Assim, através da dispersão de capital de grandes activos estatais do sector bancário, telecomunicações e dos seguros, o Estado angolano está a abrir as portas para expandir o Rácio de Buffett, de maneira que o  mercado de capitais angolano se aproxima, cada vez mais, ao PIB do país.

Todavia, a privatização de uma empresa e a sua entrada em bolsa não produzem automaticamente financiamento novo para a economia. Se o Estado vender uma participação já existente (OPV), os recursos da operação destinam-se, em regra, ao Estado. A empresa só recebe directamente novos recursos quando a operação envolve a emissão de acções novas (OPS), ou outra estrutura de financiamento que lhe permita captar capital.

Além disso, a profundidade de uma bolsa não depende exclusivamente da entrada de grandes empresas públicas. Exige também condições para que empresas privadas, incluindo pequenas e médias empresas com potencial de crescimento, encontrem instrumentos de financiamento compatíveis com a sua dimensão, maturidade e perfil de risco.

Países como Brasil, EUA, África do Sul, Nigéria e Quénia, as PMEs têm recorrido ao mercado de capitais através da abertura do capital da empresa para captação de financiamento. Quando comparado com o Produto Interno Bruto (PIB) destes países, verifica-se que a capitalização bolsista das PMEs têm sido razoavelmente representativa face ao PIB.

A BODIVA dispõe de um segmento de bolsa dirigido às PMEs, concebido para facilitar o acesso das empresas de menor dimensão ao financiamento. Contudo, cerca de quatro anos após a sua criação, o segmento continua sem empresas admitidas à negociação.  Se o segmento foi concebido para reduzir as barreiras de entrada como a possibilidade de recorrer a um perito avaliador sem necessidade de contratar uma das Big Four de auditoria, a redução do horizonte temporal do plano de negócios de cinco para três anos e a utilização de um prospecto simplificado. Então, por que razão ainda não conseguiu transformar essa possibilidade regulamentar em admissões efectivas?

Estas medidas podem diminuir os encargos financeiros e administrativos de preparação para o mercado. Todavia, reduzir os requisitos formais não equivale a eliminar os obstáculos económicos que impedem uma empresa de captar capital. Uma PME pode cumprir as condições regulamentares e, ainda assim, não estar preparada para convencer os investidores. A admissão à negociação não é, por si só, uma garantia de financiamento. Antes de chegar à bolsa, uma empresa precisa de construir uma proposta de investimento convincente. E, mesmo quando essa proposta é considerada válida pelo regulador, a procura efectiva dos investidores continua a ser determinante para o sucesso da operação

Capitalização não é sinónimo de financiamento produtivo

É aqui que a análise do Rácio de Buffett deve ser complementada por outros indicadores. Uma subida da capitalização bolsista pode resultar da admissão de novas empresas, da emissão de acções, da valorização dos títulos já cotados ou de uma combinação destes factores. Cada um produz efeitos económicos diferentes.

A valorização de acções pode aumentar a riqueza financeira dos seus detentores sem gerar, por si só, uma entrada equivalente de recursos nas empresas. Inversamente, uma emissão de novas acções pode financiar investimentos produtivos mesmo quando o mercado atravessa um período de avaliações moderadas.

O verdadeiro teste do mercado de capitais angolano

O desenvolvimento do mercado de capitais não se mede exclusivamente pela dimensão da bolsa, pelo número de transacções ou pelo valor dos títulos negociados. Mede-se, também, pela capacidade de transformar poupança em investimento, distribuir riscos, financiar a expansão empresarial e criar condições para que empresas viáveis acedam a fontes de capital para além do crédito bancário.

Um Rácio de Buffett de 13,15% deve ser entendido como um ponto de partida para esta discussão, e não como uma sentença sobre o futuro do mercado angolano. A sua evolução dependerá da entrada de novas empresas, da confiança dos investidores, da qualidade da informação financeira, da estabilidade regulatória e da existência de oportunidades de investimento sustentadas por perspectivas económicas credíveis. O PROPRIV pode contribuir para esse percurso, mas o seu alcance dependerá da forma como as operações forem estruturadas e dos mecanismos que permitam converter a abertura do capital em desenvolvimento efectivo do mercado.

A questão decisiva, portanto, não é apenas saber quanto vale a bolsa angolana em relação ao PIB. É perceber quanto desse mercado está a contribuir para financiar a economia real.

‎Porque uma bolsa pode crescer sem financiar proporcionalmente mais empresas, tal como uma economia pode expandir-se sem beneficiar plenamente dos instrumentos do mercado de capitais. O verdadeiro desafio de Angola é aproximar estas duas dimensões: construir um mercado accionista maior, mais líquido e mais inclusivo, mas, sobretudo, capaz de transformar capital disponível em capacidade produtiva, inovação e crescimento sustentável.

No final, a medida mais relevante do sucesso não será apenas a distância que separa a capitalização bolsista do PIB, mas a capacidade de reduzir a distância entre as poupanças dos investidores e as necessidades de financiamento das empresas angolanas.

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