A economia angolana continua marcada por um elevado grau de informalidade. Estima-se que cerca de 80% da actividade económica ocorra fora do circuito formal, uma realidade que representa um desafio estrutural para várias políticas públicas, incluindo a inclusão financeira e seguradora. Contudo, alguns dados recentes obrigam-nos a olhar para esta realidade sob uma perspectiva diferente e, quiçá, mais optimista.
De acordo com informações divulgadas recentemente e citadas pela Associação Angolana de Internet (AAI), cerca de 39% da população angolana já tem acesso à internet, o que corresponde a mais de 14 milhões de utilizadores. Mais expressivo ainda é o número de assinaturas de telefonia móvel activas, que ultrapassa 29 milhões, representando aproximadamente 78% da população.
Estes números revelam uma realidade interessante: embora mais de metade da população continue excluída do mundo digital pleno, uma larga maioria dos angolanos já está ligada ao mundo através de um instrumento simples e poderoso, o companheiro do dia-a-dia: o telemóvel.
Este dado é particularmente relevante quando analisado no contexto da inclusão financeira e, em especial, da inclusão seguradora.
Durante muito tempo, a informalidade económica foi vista como um obstáculo quase intransponível para o desenvolvimento de serviços financeiros formais, incluindo os seguros. Contudo, talvez seja necessário inverter a forma como interpretamos esta realidade. Quando uma percentagem tão elevada da população permanece fora do sistema formal, é legítimo questionar se o problema reside apenas nas pessoas ou se, em certa medida, os próprios mecanismos formais se tornaram excessivamente complexos ou inacessíveis.
Dito de outro modo, talvez não estejamos apenas perante um problema de informalidade. Talvez estejamos, também, perante um problema de formalização excessiva, que acaba por excluir milhões de pessoas que vivem e trabalham fora das estruturas económicas tradicionais.
É aqui que a tecnologia pode desempenhar um papel decisivo. Se quase 80% da população angolana tem acesso a um telemóvel, estamos perante uma infra-estrutura de inclusão potencial extremamente poderosa. Importa notar que não estamos necessariamente a falar de smartphones ou dispositivos sofisticados. Em muitos casos, trata-se de telemóveis analógicos, os chamados telemóveis de botão, amplamente utilizados em várias zonas do país. Ainda assim, esses dispositivos já permitem realizar operações simples, como carregamentos, transferências de saldo ou pagamentos digitais básicos.
Em vários países africanos, esta realidade tem sido utilizada como base para expandir serviços financeiros de forma inovadora. Países como Quénia, África do Sul ou Moçambique demonstraram que é possível alargar o acesso aos seguros através da integração com plataformas de mobile money.
Nestes modelos, os seguros, as mais das vezes na forma de microsseguros, são oferecidos através das próprias operadoras de telecomunicações ou de parcerias com instituições financeiras. O pagamento do prémio não é feito em dinheiro físico, nem exige necessariamente conta bancária. Em vez disso, os valores são deduzidos automaticamente do saldo do telemóvel ou dos carregamentos efectuados pelo utilizador.
Trata-se, muitas vezes, de prémios muito reduzidos, ajustados à realidade económica da população. Contudo, apesar de modestos, estes produtos cumprem uma função essencial: oferecem protecção financeira contra riscos básicos, como doença, acidentes ou perdas materiais. Para milhões de pessoas, este tipo de solução representa o primeiro contacto com o mundo dos seguros.
Angola reúne várias condições que podem favorecer um percurso semelhante. A elevada penetração da telefonia móvel, aliada à crescente digitalização dos serviços financeiros, cria um terreno bastante fértil para o desenvolvimento de soluções de microsseguro acessíveis e adaptadas à realidade local.
Naturalmente, este processo exigirá mais do que tecnologia. Também requererá inovação por parte das seguradoras, capacidade de adaptação regulatória e um esforço consistente de literacia financeira e seguradora. Muitas pessoas continuam a olhar para o seguro como um produto distante ou reservado a segmentos específicos da sociedade.
No entanto, à medida que os modelos de distribuição evoluem e se tornam mais simples, acessíveis e integrados com tecnologias do quotidiano, essa percepção tende a mudar.
O telemóvel, que hoje já é uma ferramenta essencial de comunicação e acesso à informação, pode transformar-se também num instrumento de protecção financeira.
No fundo, os números mostram que o potencial existe. O desafio está em saber interpretá-los correctamente. Como frequentemente se diz no mundo da economia e da gestão, a estatística não resolve os problemas por si só, mas ajuda os decisores a tomarem decisões mais próximas da realidade.
Se Angola conseguir aproveitar o potencial da conectividade móvel para desenvolver soluções inclusivas, os microsseguros poderão tornar-se num dos instrumentos mais eficazes para reduzir a vulnerabilidade económica de milhões de famílias.
A inclusão seguradora, nesse contexto, deixará de ser apenas um objectivo do sector financeiro e passará a ser também um elemento relevante da própria agenda de desenvolvimento do país.