Opinião

Inflação, Kwanza e Eleições: o que dizem os dados? ‎

Osmar Pessela

Cientista de Dados

28 Janeiro, 2026 - 21:11

28 Janeiro, 2026 - 21:11

Osmar Pessela

Cientista de Dados

‎A inflação e a taxa de câmbio do kwanza face ao dólar norte-americano são dois dos indicadores económicos mais sensíveis em Angola, com impacto directo no poder de compra das famílias e na actividade empresarial. Durante os períodos eleitorais, surge, frequentemente, a ideia de que o kwanza tende a valorizar e a inflação a abrandar. Mas será que esta percepção tem fundamento nos dados?

‎Analisando os dados históricos, por um lado, as eleições de 2017 ocorreram num contexto de dificuldades económicas significativas, com Angola a lidar com os efeitos da queda do preço do petróleo, inflação elevada e escassez de divisas. Naquele momento, o país focou-se na estabilização institucional e na recuperação da credibilidade económica, sem mudanças estruturais profundas. Por outro, as eleições de 2022 ocorreram num ambiente mais favorável, com o kwanza a valorizar-se de forma significativa e a inflação a abrandar. Isso deveu-se a uma política monetária mais restritiva, maior disciplina fiscal, aumento das receitas petrolíferas e reforço da confiança no mercado cambial. No entanto, após as eleições, essa melhoria revelou-se temporária, com o kwanza a enfrentar novamente pressões cambiais e a inflação a manter-se elevada.

‎Os dados disponíveis sugerem que existe uma tendência de estabilização económica nos anos eleitorais, mas não há evidências claras de que a valorização do kwanza seja automática ou garantida. O comportamento da moeda depende de uma série de factores internos e externos, e a actuação das autoridades monetárias tende a ser mais activa nesses períodos.

‎A utilização de ciência de dados, com modelos como ARIMA ou Prophet, pode ajudar a compreender melhor os efeitos das variáveis eleitorais e separar percepções de evidências concretas, contribuindo para um debate mais rigoroso e menos influenciado por narrativas simplistas.

‎Para o próximo ciclo eleitoral, é possível que existam mais esforços para estabilizar a economia, mas qualquer melhoria será, provavelmente, temporária, a menos que haja reformas estruturais significativas. A sustentabilidade de qualquer valorização do kwanza dependerá da evolução das receitas externas, da disciplina orçamental e da credibilidade da política monetária.

‎Em resumo, a relação entre eleições, inflação e taxa de câmbio é complexa e não há garantias de que a valorização do kwanza seja duradoura. O recurso a dados e ferramentas analíticas mais avançadas deve orientar o debate económico, afastando-o de percepções infundadas.

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