Durante mais de quatro décadas, a República Islâmica do Irão tem navegado em águas internacionais turbulentas, enfrentando um dos regimes de sanções económicas mais abrangentes e duradouros da história moderna, resultante do sistema político e económico adoptado, fechado ao comércio internacional. Longe de sucumbir ao isolamento imposto pelas grandes potências mundiais, o país tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação, transformando adversidades em catalisadores para o desenvolvimento interno.
O que explica a surpresa constante do mundo perante um país que, com os embargos económicos e financeiros, continua a afirmar-se como uma potência regional? A resposta reside numa aposta estratégica e deliberada no seu recurso mais valioso: o capital humano.
A Revolução Silenciosa na Educação e na Ciência
O progresso iraniano é, talvez, mais visível no campo da educação e da ciência. Na década de 1970, antes da Revolução Islâmica, a taxa de alfabetização no Irão era de cerca de 36%, um valor inferior ao de muitas nações africanas. Em menos de duas décadas, este cenário transformou-se radicalmente.
Salto Educacional: Actualmente, a taxa de alfabetização ultrapassa os 88%, com a população jovem (entre 15 e 24 anos) a atingir quase 98%. Este salto coloca o país muito acima da média dos países em desenvolvimento e compara-se favoravelmente com muitas nações do sul da Europa.
Produção Científica: O investimento na educação superior traduziu-se na produção científica. O Irão é, hoje, um dos países que mais cresce no mundo em publicações académicas e patentes, com destaque nas áreas de medicina, engenharia, química e física nuclear.
Uma economia diversificada para além do Petróleo
Embora possua uma das maiores reservas de petróleo e gás natural (a segunda da maior do mundo em gás), Teerão percebeu que a dependência do ouro negro seria uma fragilidade fatal sob sanções. O país empreendeu um esforço consciente para diversificar a sua economia.
Ao contrário da Venezuela, cuja economia colapsou devido à excessiva dependência petrolífera, o Irão desenvolveu sectores alternativos robustos:
Sector Industrial: Indústria automotiva significativa, complexos petroquímicos gigantescos e um setor de construção em expansão.
Agricultura: Apesar do clima árido, o Irão atingiu a autossuficiência em produtos agrícolas essenciais, como o trigo, tornando-se menos vulnerável a embargos alimentares.
O Poder tecnológico e a indústria de defesa
Foi no sector de defesa que o país deixou, recentemente, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, visivelmente impressionado: “Como é que um país, sob sanções severas há décadas, consegue construir drones de alta precisão capazes de atingir qualquer alvo na região?”
A resposta é fruto de uma longa jornada de autossuficiência. Com a impossibilidade de importar armamento ocidental, o Irão criou a sua própria indústria bélica.
Programa de Mísseis e Drones: O Irão possui, actualmente, um dos maiores e mais diversificados arsenais de mísseis balísticos e de cruzeiro do Médio Oriente. Os drones Shahed, por exemplo, evoluíram de simples aeronaves de vigilância para plataformas de ataque de precisão, desenvolvidas inteiramente por engenheiros iranianos.
Sector Aeroespacial: O Irão é uma das poucas nações do mundo com capacidade para lançar satélites próprios, como o Noor, em órbita, demonstrando domínio de tecnologias complexas de propulsão e telecomunicações.
O Paradoxo das sanções: a criatividade compulsória
A trajectória do Irão remete-nos para a África do Sul durante o periodo de apartheid. Pressionado por sanções internacionais, o regime sul-africano desenvolveu uma indústria bélica e tecnológica própria e surpreendente. Da mesma forma, o isolamento forçou o Irão a reinventar-se aprofundando os sectores acima citados.
Enquanto vários países do Golfo Pérsico, dotados de riqueza extrema, optaram por um modelo baseado na importação de tecnologia e know-how, o Irão seguiu o caminho mais árduo: o da construção interna. Isto gerou um ecossistema de criatividade e engenho que nenhuma sanção pode embargar.
A singularidade do modelo iraniano
É comum traçar paralelos entre o Irão e Cuba, mas essa comparação é imprecisa.
Cuba, apesar do inegável sucesso na saúde e biotecnologia, viu a sua economia estagnar e a diversificação produtiva definhar.
O Irão, por outro lado, apresenta um desenvolvimento polifacetado. A sua resiliência não se baseia num único sector, mas numa combinação de poder industrial, agrícola, energético, científico e militar.
O país tem uma estrutura de poder mais descentralizada e uma sociedade civil com elevado nível educacional, o que lhe confere uma capacidade de adaptação que falta a outros regimes sujeitos a sanções.