A inflação em Angola tem vindo a recuar de forma substancial ao longo dos últimos meses, sinalizando uma mudança relevante no enquadramento macroeconómico do país. Depois de ter atingido 31,09% em Julho de 2024, a taxa de inflação anual desacelerou para 15,70% em Dezembro de 2025. Parte desta desaceleração resulta do facto de os preços estarem a ser comparados com níveis muito elevados no período homólogo, a par de uma maior estabilidade cambial e de uma redução da volatilidade em determinados preços. Trata-se de um movimento essencialmente conjuntural, que não deve ser interpretado como uma mudança estrutural do enquadramento macroeconómico.
O Banco Nacional de Angola (BNA) antecipa que esta trajectória descendente prossiga em 2026, apontando para uma inflação em torno dos 13,50%. As projecções de outras instituições são ligeiramente mais conservadoras, mas convergem, de forma geral, para níveis semelhantes, situando a inflação de Angola entre 13% e 15% em 2026. Ou seja, apesar de pequenas divergências nas estimativas, existe hoje um consenso alargado de que o período de inflação acima de 20% deverá ficar para trás no curto a médio prazo.
Este novo contexto tem implicações directas e relevantes para os investidores. Durante vários anos, a inflação elevada tornou praticamente impossível obter retornos reais positivos, uma vez que mesmo taxas nominais elevadas eram rapidamente corroídas pela subida generalizada dos preços. Mesmo assumindo que esta fase seja temporária, o actual nível e tendência da inflação cria um ambiente mais favorável para determinadas estratégias de investimento sendo que o recuo da inflação deixou abriu uma folga positiva relativamente às taxas do mercado.
Na figura que se segue, podemos constatar que a taxa de referência do banco central está acima do Índice de Preço no Consumidor Nacional (IPCN) publicado pelo Instituto Nacional de Estatística:
No mercado monetário, é possível encontrar instrumentos com taxas anuais na ordem dos 17% a 18%, já claramente acima da inflação corrente e, mais importante, acima das expectativas de inflação futura de curto prazo. No mercado de capitais, surgem ocasionalmente oportunidades em títulos de dívida com maturidade residual próxima de dois anos a oferecer rendimentos entre 18% e 19%, o que representa um prémio real interessante num contexto de inflação em desaceleração. Neste segmento, é importante distinguir entre emissões de risco soberano e de risco corporativo, sendo que estas últimas podem oferecer um prémio adicional, mas normalmente com menor liquidez e maior sensibilidade ao risco de crédito.
Adicionalmente, existem fundos de investimento abertos no mercado angolano que têm apresentado rentabilidades anualizadas superiores a 20%, que representa um prémio de mais de 4 pontos percentuais considerando o actual nível de inflação, beneficiando tanto do nível elevado das taxas de juro como de uma gestão activa da liquidez e do risco de duração. Para investidores que valorizam diversificação e liquidez, estes veículos constituem uma alternativa relevante aos instrumentos directos de dívida.
No paradigma anterior, era estruturalmente difícil rentabilizar capital acima da taxa de inflação. Por exemplo, no último dia de negociação de 2023, as diferentes maturidades da Curva de Rendimentos OT-NR da BODIVA reflectiam taxas entre 14% a 16%, e a inflação dos anos 2024 e 2025 cifrou-se em 20,01% e 27,50%, respectivamente.
Actualmente, a conjugação de inflação em queda com taxas nominais ainda elevadas cria um ambiente particularmente favorável para estratégias focadas em renda fixa e mercado monetário.
Importa, no entanto, evitar leituras excessivamente optimistas ou estruturais deste momento. A experiência recente mostra que a economia angolana é fortemente sensível a factores exógenos e a decisões de política económica, o que torna prudente assumir que este ambiente seja transitório. Por essa razão, faz sentido que os investidores adoptem uma abordagem conservadora em termos de horizonte temporal, privilegiando investimentos de curto prazo, que permitam capturar a rentabilidade actual, mas monitorando de perto a política monetária do banco central e a evolução do mercado cambial, uma vez que estes constituem os principais factores de risco para a continuidade deste cenário favorável.
Em suma, não se trata de uma mudança permanente no regime económico, mas sim de uma janela de oportunidade de curto prazo. Num contexto em que a inflação abranda temporariamente e as taxas de juro permanecem elevadas, é possível, neste momento, rentabilizar capital acima da inflação. A chave está em reconhecer a natureza conjuntural deste cenário e em alinhar as decisões de investimento com prazos mais curtos e maior flexibilidade.
