Há 11 anos, precisamente a 3 de Agosto de 2014, a KPMG em Portugal e o seu escritório de representação em Luanda, estavam debaixo de uma crise reputacional. De Lisboa, chegava a notícia do que viria a ser considerado o período mais nefrálgico da banca portuguesa: o Banco Espírito Santo (BES), também conhecido por “o banco de todos os regimes”, acabava de ruir.
A decisão vinha contida numa Resolução do Banco de Portugal (BdP), lida numa noite de domingo, pelo então governador Carlos Costa, que, na ocasião, anunciava a criação de um banco novo, denominado Novo Banco, “devidamente capitalizado e expurgado de activos problemáticos”.
Os ecos em Luanda não se fizeram esperar. Em menos de 24 horas, numa segunda-feira (04.08), o então governador do Banco Nacional de Angola (BNA), José de Lima Massano, convocou a imprensa para comunicar a adopção de medidas extraordinárias de saneamento à sucursal do BES, o Banco Espírito Santo Angola (BESA), incluindo a nomeação de dois administradores provisórios com poder para vetar quaisquer decisões dos accionistas, da administração ou de qualquer outro órgão deliberativo do banco, e a revogação da garantia soberana prestada ao banco pelo Estado.
Do anúncio de saneamento à declaração oficial de falência, por parte do regulador bancário, bastaram apenas 67 dias, coincidentemente, num domingo (10 de Outubro).
Neste artigo, não procuramos reflectir ou relembrar a exposição do BES ao BESA, nem tão-pouco as razões que levaram a derrocada das referidas instituições financeiras. Este é somente um enquadramento para reavivar as sequelas de uma gestão opaca e que acabou por afectar, de modo inevitável, a reputação da KPMG e dos seus responsáveis, tanto em Portugal como em Angola, devido a um processo movido pelo regulador português à actuação do auditor externo, por, nomeadamente, “não ter cumprido com as normas de auditoria” e de ter omitido “as perdas identificadas na carteira de crédito do BESA”.
Dito de outro modo, à data dos factos, o presidente da KPMG Portugal, que revisava as contas do BES, era, ao mesmo tempo, o presidente da KPMG Angola, que revisava as contas do BESA: Sikander Sattar.
Entretanto, depois de uma longa e desgastante batalha judicial, o processo movido pelo supervisor da banca portuguesa acabou por tropeçar no Supremo Tribunal de Justiça. A KPMG foi absolvida no diferendo, mas os danos reputacionais à marca foram, indiscutivelmente, irreversíveis.
Dizem os financistas que estes danos teriam sido evitados se, por exemplo, à época, o seu modelo de governança corporativa não assentasse num modelo integrado de presidência única. Ou seja, aquilo que a nova gestão designou por ‘Cluster KPMG Portugal e Angola’, nomeando Vitor Ribeirinho como líder máximo nos dois países, não apenas representa um retrocesso de gestão como também expõe um risco operacional bastante elevado.
Aliás, consciente dos danos à imagem da empresa, foi por esta razão que Sikander Sattar se apartou da liderança, em 2017, a favor de Inês Filipe, que, na prática, já era a líder de facto. Estranha-se, agora, 8 anos depois, que a KPMG adopte a mesma estrutura de gestão, uma decisão que volta a atrair a atenção de analistas e observadores do sector.
Não direi nenhuma ciência: penso ser unânime que, se, por alguma razão, a gestão de Ribeirinho vier a ser penalizada numa das jurisdições, ainda que seja uma mera investigação, o efeito será sempre dominó. Que o diabo seja cego, surdo e mudo…
Seja como for, vale a pena citar George Santayana: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.