Angola tem enfrentado um paradoxo económico persistente: há capital disponível para investir, mas muitos sectores continuam sem escala produtiva. Durante anos, a explicação dominante foi a falta de financiamento ou de reformas institucionais. Mas existe um problema estrutural menos discutido: a descoordenação económica.
Esse problema tem um custo real, embora raramente quantificado. Quando sectores económicos funcionam de forma fragmentada, com cadeias de valor incompletas e fraca articulação entre actores, o sistema financeiro passa a operar num ambiente de risco estruturalmente mais elevado.
E quando o risco estrutural aumenta, o capital torna-se mais caro, mais escasso e mais selectivo. Em termos simples: a falta de coordenação económica destrói valor antes mesmo de o investimento acontecer.
Em Angola, muitos sectores apresentam uma característica comum: coexistem grandes operadores formais, pequenas e médias empresas e uma vasta base de operadores informais que sustentam parte significativa da actividade económica.
Esta diversidade não é necessariamente um problema. Pode ser uma vantagem competitiva. O problema surge quando não existem mecanismos eficazes de articulação entre estes actores.
Sem coordenação, surgem várias distorções económicas:
- Custos de transacção elevados;
- Dificuldades de acesso ao mercado;
- Fraca previsibilidade de fluxos de receita;
- Elevada assimetria de informação entre operadores e financiadores.
Para o sistema financeiro, isto traduz-se numa consequência clara: maior incerteza na avaliação de risco. Quando o risco é difícil de medir, o crédito torna-se mais caro ou simplesmente não acontece.
Historicamente, várias iniciativas de desenvolvimento económico tentaram resolver este problema através da expansão do crédito. A lógica parecia simples: mais financiamento geraria mais actividade produtiva.
Um exemplo claro desta dinâmica pode ser encontrado no Programa Angola Investe. Ao longo da sua implementação, foram concedidos cerca de 120 mil milhões de kwanzas em crédito para financiar mais de 500 projectos empresariais, com apoio adicional do Estado através de bonificação de juros e garantias públicas.
O objectivo era estimular o surgimento de pequenas e médias empresas e acelerar a diversificação económica. No entanto, em muitos casos, o financiamento antecedeu a estruturação dos mercados onde essas empresas deveriam operar. O resultado foi previsível: uma parte significativa dos projectos teve dificuldade em escalar e parte do crédito tornou-se mal parado.
O problema não foi necessariamente o Programa. Foi a ausência de mecanismos eficazes de coordenação económica. Quando o financiamento antecede a organização económica, o sistema financeiro passa a financiar estruturas produtivas frágeis. O risco acumula-se e, inevitavelmente, a confiança deteriora-se.
É um padrão observado em várias economias emergentes: crédito sem arquitectura económica tende a amplificar fragilidades existentes.
Uma abordagem diferente começa por reconhecer que, em economias fragmentadas, o desafio não é apenas financiar mais, mas organizar melhor a actividade económica existente, criando mecanismos de coordenação capazes de integrar operadores dispersos e estruturar cadeias de valor mais previsíveis, denominadas por plataformas económicas.
Neste caso, plataforma não significa necessariamente tecnologia digital. Significa antes infra-estrutura económica que organiza actores, define regras e reduz fricções de mercado.
Imagine-se, por exemplo, uma plataforma agrícola que integre produtores, logística, compradores institucionais e financiamento baseado em produção verificável.
Num sistema fragmentado, cada produtor negocia isoladamente, a informação sobre produção é escassa e o crédito torna-se difícil de avaliar.
Numa plataforma coordenada, a produção torna-se previsível, os fluxos económicos são visíveis e o financiamento pode ser estruturado com muito menor risco.
Quando essa arquitectura existe, várias coisas mudam:
- Os fluxos económicos tornam-se mais previsíveis;
- Os dados sobre actividade económica tornam-se mais disponíveis;
- O risco de crédito torna-se mais mensurável;
- O capital pode ser alocado com maior eficiência.
O crédito deixa então de ser aposta e passa a ser instrumento de expansão produtiva.
Para bancos e investidores, a diferença entre financiar uma economia fragmentada e financiar uma economia coordenada é significativa. Num sistema económico melhor orquestrado:
- O risco de crédito é mais transparente;
- A informação sobre performance produtiva é mais acessível;
- Os activos financiados têm ligação mais clara a fluxos de receita;
- Os mecanismos de mitigação de risco tornam-se mais eficazes.
Em termos práticos, isto significa menor incerteza e maior capacidade de financiamento sustentável. Ou, dito de outra forma, o sistema financeiro deixa de operar predominantemente em modo defensivo, como temos visto.
Angola tem feito progressos importantes na estabilização macroeconómica e na modernização institucional. Mas a próxima fase de desenvolvimento económico exigirá também uma mudança de perspectiva.
O desafio não é apenas mobilizar capital. É criar arquitecturas económicas que permitam ao capital produzir impacto real. Sem coordenação, crescimento tende a ser episódico. Com coordenação, torna-se estrutural.
Num país onde muitos sectores continuam fragmentados, a capacidade de organizar mercados, integrar operadores e estruturar fluxos económicos pode ser um dos factores mais determinantes para o futuro da economia.
E, para o sistema financeiro, essa mudança pode significar algo simples, mas poderoso: mais oportunidades de financiamento produtivo, com menos risco sistémico.
Angola já demonstrou capacidade de mobilizar capital para grandes infra-estruturas físicas.
O próximo desafio é construir também infra-estruturas económicas de coordenação capazes de organizar mercados, integrar operadores e transformar actividade dispersa em sistemas produtivos financiáveis.
Porque, no fim, a diferença entre uma economia fragmentada e uma economia coordenada não é apenas teórica.
É a diferença entre capital que procura oportunidades e capital que finalmente as encontra.