Opinião

Os biliões de kwanzas que se perdem na baixa de Luanda!

Júlio Rafael

Arquitecto e Urbanista

10 Março, 2026 - 17:12

10 Março, 2026 - 17:12

Júlio Rafael

Arquitecto e Urbanista

Na Baixa de Luanda, milhares de pessoas atravessam, diariamente, as mesmas ruas: funcionários públicos, trabalhadores, estudantes, comerciantes formais e informais, visitantes ocasionais. Há trânsito, há movimento, há história. E uma regra básica da economia urbana lembra-nos: onde há pessoas, há dinheiro.

O problema é que esse dinheiro não está a ser captado pela própria Baixa. A cidade gera fluxo, mas não gera valor à altura desse potencial. Faltam serviços qualificados, comércio estruturado, oferta cultural permanente, habitação reabilitada, hotelaria competitiva e segurança jurídica para suportar investimento sustentável. O resultado é um paradoxo: o território mais simbólico da capital é também um dos lugares onde mais kwanzas se perdem diariamente por ausência de estratégia.

Não se trata apenas de fachadas degradadas ou de nostalgia urbana. Trata-se de uma questão económica e política: quanto custa à cidade manter o seu centro histórico a meio-gás?

Uma lista de prédios vazios e uma conta que não fecha. A Baixa enfrenta problemas que já parecem “paisagem”:

  1. Edifícios em litígio, impossíveis de reabilitar ou transaccionar;
  2. Obras abandonadas, que desvalorizam quarteirões inteiros;
  3. Prédios em risco de ruína, que afastam moradores, negócios e turismo;
  4. Lojas devolutas em ruas com grande movimento pedonal;
  5. Ausência de modelos de financiamento que permitam actuar de forma integrada;
  6. Insegurança jurídica que trava decisões de investimento de médio e longo prazos.

Por trás de cada porta fechada, há uma renda que não se cobra, um negócio que não abre, um emprego que não existe, um imposto que não entra na economia formal. Somando dezenas ou centenas de activos nesta situação, falamos de bilhões de kwanzas imobilizados.

Por isso, o primeiro passo sério não é multiplicar discursos, é fazer um diagnóstico real da Baixa: mapear edifícios devolutos, imóveis em risco, obras paradas, estruturas em litígio e zonas subutilizadas; levantar a situação jurídica de cada activo; estimar o seu potencial económico. Sem esta radiografia – urbanística, jurídica e financeira – qualquer plano de reabilitação arrisca ser apenas mais um documento sem impacto visível.

Quando não há estratégia, a cidade paga a factura 

Experiências em Joanesburgo, São Paulo, Lisboa, Berlim ou Rio de Janeiro mostram o que acontece quando o centro histórico é deixado à deriva: criminalidade mais alta, fuga de investimento para novas centralidades, património em colapso, mobilidade caótica e perda de competitividade urbana.

Luanda não falha por falta de talento ou de boas ideias. Falha, muitas vezes, por ausência de estratégia continuada e por tratar a revitalização urbana como um tema decorativo, quando deveria ser encarada como política económica e social de primeira linha.

A experiência do Nossa Ginga, lançada oficialmente em 2021 após um percurso iniciado em 2012, foi um marco importante. Trouxe a Baixa para o debate público, activou o centro com cultura, eventos e participação cidadã. Cumpriu o papel de sensibilização, mas revelou também o limite de uma abordagem exclusivamente cultural: sem um modelo financeiro robusto, não há escala nem continuidade.

De movimento cultural à estratégia de investimento

A grande lição é directa: não há reabilitação urbana sem sustentabilidade financeira. Investidores não se mobilizam apenas por amor à cidade. Mobilizam-se por activos com potencial claro de valorização; enquadramento jurídico estável; regras previsíveis e retornos mensuráveis.

É aqui que a Baixa deixa de ser apenas um “tema de arquitectura” e passa a ser tratada como activo imobiliário estratégico.

A partir do Nossa Ginga, ganha forma uma nova abordagem: a criação de um Fundo Imobiliário Especializado para a Baixa de Luanda, com missão de:

  • Adquirir activos estratégicos: Identificar prédios com potencial – mesmo em litígio ou devolutos – e negociar soluções jurídicas que os desbloqueiem.
  • Reestruturar com visão integrada e uso misto: Combinar habitação, escritórios, comércio, restauração e cultura, garantindo vida urbana real e não apenas cenários reabilitados para fotografia.
  • Valorizar financeiramente e urbanisticamente: Transformar edifícios depreciados em activos rentáveis, gerando renda, emprego e receita fiscal, enquanto se devolve densidade humana ao centro histórico.
  • Articular com Executivo e sistema financeiro: Nada disto acontece sem Governo Provincial, Ministério das Obras Públicas, Administração Municipal e parceria com bancos, seguradoras e cooperativas. Estes podem oferecer crédito, garantias e produtos financeiros que tornem o fundo mais robusto.
  • Definir metas claras para 2030–2035: Estabelecer objectivos anuais: edifícios recuperados, metros quadrados reabilitados, negócios instalados, empregos criados, impostos arrecadados. Sem indicadores, não há gestão nem credibilidade.

Pressão social inteligente: cidadania, não confronto 

É importante reconhecer a lente do Governo: enfrenta urgências diárias, reclamações constantes, limitações orçamentais. É natural que a agenda urbana seja muitas vezes reactiva. Mas isso não significa resignação social.

Quando moradores, profissionais, académicos, empresários e agentes culturais falam da Baixa com dados, propostas e visão, a revitalização deixa de ser tema marginal e torna-se exigência legítima. Pressão social inteligente não é oposição; é cidadania activa.

A cidade é de quem governa, de quem investe, de quem vive e trabalha nela. Só com esta participação colectiva a Baixa pode deixar de ser um problema crónico para se tornar uma oportunidade estratégica.

Não é desespero. É responsabilidade. 

Revitalizar a Baixa de Luanda não é um luxo, nem um exercício de vaidade urbana. É escolher entre continuar a perder bilhões de kwanzas em activos parados ou transformar o centro histórico num projecto estruturado de investimento, cidadania e orgulho nacional.

Sabemos que onde há pessoas há dinheiro. Falta alinhar diagnóstico, financiamento, políticas públicas e participação cidadã para que esse dinheiro comece, finalmente, a trabalhar a favor da cidade – e não contra ela.

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+ LIdas

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