A intensificação das tensões no Médio Oriente reacendeu, nos mercados energéticos, um cenário que, durante anos, foi considerado extremo, ou seja, a possibilidade de o Brent atingir níveis históricos, como, por exemplo, o barril situar-se acima dos 150 dólares. Se levarmos em conta que o sistema energético global é altamente interdependente, um choque desta magnitude (uma alta expressiva no preço do Brent) não deve ser interpretado como um sinal de prosperidade, tanto para países exportadores quanto para países importadores desta commodity.
Pelo contrário, um aumento “desorientado” no preço internacional do petróleo representaria um sinal de ruptura no equilíbrio entre a oferta e a procura e, consequentemente, uma instabilidade macroeconómica a nível global. Assim sendo, as interrupções que têm ocorrido no fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz, corredor por onde circula aproximadamente 20% do comércio mundial de petróleo, poderão causar um choque de oferta de grande escala, afectando o mercado global de forma significativa e potencialmente elevando os preços de forma abrupta. Num cenário como este, preços máximos não seriam um reflexo de um mercado saudável, mas sim de um sistema energético global sob ´stress´ geopolítico e logístico.
Segundo o relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) sobre o mercado petrolífero, referente ao mês de Fevereiro do ano em curso, o conflito no Oriente Médio está a provocar a maior interrupção no fornecimento da história do mercado global de petróleo. A escalada da guerra na região tem afectado, de forma directa, as rotas estratégicas de transporte energético, sobretudo no Estreito de Ormuz.
Essa redução repentina no fluxo de petróleo cria pressões imediatas sobre os preços do Brent. Como consequência directa desse cenário de risco, os contratos futuros do Brent chegaram a disparar para perto de 120 dólares por barril. Do ponto de vista macroeconómico, caso o preço internacional do petróleo atinja valores máximos históricos, a conjuntura internacional funcionará como um choque global de custos, uma vez que o petróleo continua a ser um elemento central em praticamente todas as cadeias produtivas modernas, desde o transporte marítimo e a aviação até à produção agrícola.
No entanto, a transmissão de um choque energético para a economia real pode ocorrer por vários canais interligados. Primeiro, o aumento dos preços do petróleo eleva directamente os custos logísticos, já que o transporte e a distribuição de bens dependem fortemente de combustíveis fósseis. Esse aumento é repassado ao consumidor, pressionando os preços de alimentos e fertilizantes e tornando mais cara a produção agrícola e industrial. Ao mesmo tempo, as empresas veem as suas margens comprimidas, porque enfrentam custos mais altos sem conseguirem transferir totalmente esses aumentos para o preço final dos seus produtos.
Além disso, a meu ver, esses choques tendem a alterar as expectativas inflacionistas. Famílias e empresas, em regra, antecipam preços mais altos no futuro num contexto de aumento dos preços a nível internacional, o que, por si só, pode gerar um efeito de aceleração inflacionista. Nesse sentido, os aumentos inesperados do preço do crude funcionam como um mecanismo de transferência de renda das economias importadoras para os produtores ou exportadores.
Em termos macroeconómicos, considero que isso equivale a um “imposto energético” regressivo, porque sobrecarrega proporcionalmente mais as economias de renda mais baixa, uma vez que estas gastam uma parte maior do seu orçamento com energia e bens essenciais, funcionando como um encargo adicional que não gera um efeito multiplicador, ao mesmo tempo que limita o consumo e a actividade económica.
A história recente do mercado petrolífero confirma que os ganhos inerentes à alta súbita do preço do barril de petróleo são, caracteristicamente, mais evidentes no curto prazo. Tal como se verificou em Julho de 2008, quando o Brent atingiu o recorde histórico de cerca de 147 dólares por barril, num período marcado por forte crescimento da procura global e restrições de capacidade no lado da oferta. Porém, esse pico precedeu uma forte correcção poucos meses depois, com a economia mundial a entrar em recessão, os preços internacionais do petróleo colapsaram para níveis próximos de 40 dólares.
Entretanto, esse episódio ilustra um padrão recorrente nos mercados energéticos, ao evidenciar que níveis de preços do Brent extremamente elevados e alcançados repentinamente tendem a destruir procura, acelerar ajustamentos macroeconómicos e desencadear ciclos abruptos de correcção.
Paradoxalmente, mesmo para os países exportadores, um preço do barril de petróleo situado em máximos históricos dificilmente representaria uma vantagem estrutural no longo prazo. Isso porque níveis excessivamente elevados de preços podem provocar efeitos macroeconómicos adversos na economia global, como desaceleração do crescimento, pressões inflacionistas e retracção da procura por energia. Uma situação possível é que, à medida que o petróleo se torna demasiado caro, economias importadoras têm predisposição para reduzir o consumo, acelerar a substituição por fontes energéticas alternativas e adoptar políticas de eficiência energética mais competitivas.
No longo prazo, esse processo acabaria por enfraquecer a própria procura pelo petróleo exportado, reduzindo a sustentabilidade das receitas dos países produtores. Assim, o que inicialmente parece ser um ganho conjuntural de receita pode transformar-se num factor de instabilidade para os próprios exportadores, sobretudo aqueles altamente dependentes das rendas petrolíferas.
Não obstante as vantagens no curto prazo, a experiência histórica demonstra que níveis extremos de preços do petróleo raramente produzem vencedores duradouros. Em vez disso, desencadeiam ciclos de inflação, desaceleração económica e transformação estrutural no consumo energético. Por essa razão, num mundo ainda profundamente dependente do petróleo, um barril de petróleo em máximos históricos dificilmente beneficiaria uma economia de forma sustentável.