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A arquitectura de uma ideia que antecipou o futuro

21 Abril, 2026 - 22:13

Business Intelligence

21 Abril, 2026 - 22:13

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Há percursos que se organizam por cargos e há percursos que se estruturam por ideias. O de Frederico Thoth Jorge de Miranda inscreve-se claramente na segunda categoria. Da tecnologia à banca, da inovação à economia política do desenvolvimento, sobressai uma coerência de fundo: a de alguém que analisa problemas em termos de arquitectura, instituições, incentivos e escala

Essa linha de pensamento atravessa toda a entrevista, que parte do pedido de patente US 2008/0204556 A1 – Vehicle Camera Security System, antecipando há 20 anos tendências da indústria automóvel, e evoluiu para uma reflexão mais ampla sobre inovação em África. Acompanhe a entrevista a Frederico Miranda, antigo assessor do Conselho de Administração do Banco Espírito Santo Angola (BESA), entre 2013 a 2017.

O que o levou a criar o sistema descrito no pedido de patente US 2008/0204556 A1?

A inspiração surgiu de um episódio concreto, aparentemente simples, mas que me marcou. Quando era estudante universitário nos Estados Unidos, certa vez, ao regressar ao carro depois de sair com amigos, encontrei uma amolgadela. Mais do que o dano em si, o que me causou desconforto foi não haver qualquer explicação: nenhum bilhete, nenhum contacto, nada que esclarecesse o que tinha acontecido, o que contrariava uma norma de conduta relativamente comum naquele meio.

Foi esse episódio que me levou a uma reflexão mais ampla: quando não estamos junto do veículo, ficamos sem saber o que realmente se passou. A partir dessa constatação, a ideia começou a estruturar-se de forma natural: era preciso assegurar capacidade de observação através de câmaras, cobertura alargada por vários ângulos, activação inteligente com base em eventos e possibilidade de acesso remoto à informação. Foi assim que nasceu o conceito: substituir uma lógica de segurança centrada apenas no alarme sonoro por um sistema assente em evidência visual e consciência situacional.

Como surgiu a visão técnica por detrás da patente?

A ideia surgiu de uma reflexão sobre o problema no seu conjunto. O foco não estava numa câmara isolada, mas na concepção de um sistema com quatro componentes fundamentais: captação de imagem, activação inteligente, armazenamento baseado em eventos e comunicação remota.

Que significado tem o facto de ter sido amplamente citado?

Representa, antes de mais, uma validação de relevância técnica. Convém esclarecer, com rigor, que o pedido não chegou a ser concedido; foi abandonado por limitações financeiras. Ainda assim, ao ser publicado, passou a integrar o estado da arte, ou seja, entrou no acervo público de conhecimento técnico que pode ser pesquisado, analisado e citado em processos posteriores.

No meu caso, o documento registou 69 citações, um número expressivo em muitos domínios tecnológicos. Mas mais importante do que a quantidade é a natureza dessas referências. As citações feitas por examinadores do USPTO têm um peso institucional particularmente forte, porque indicam que o documento foi considerado em processos oficiais de exame, isto é, no momento em que se avalia a novidade e a consistência técnica de invenções subsequentes. Já as citações feitas por requerentes, inventores ou seus representantes também são relevantes, porque mostram que o pedido foi identificado e utilizado como referência em processos posteriores de protecção de novas soluções.

Quando um documento desta natureza surge citado em contextos ligados a entidades como Ford, Toyota, BMW, Nissan ou Boeing, isso não deve ser lido como um troféu simbólico, mas como um dado objectivo: a ideia entrou no circuito formal da inovação e permaneceu suficientemente relevante para ser considerada na evolução técnica do sector. Para mim, essa é talvez a forma mais séria de reconhecimento — não a celebração vazia, mas a permanência verificável no registo técnico que ajuda a enquadrar e a orientar aquilo que veio depois.

Teve apoio no desenvolvimento do pedido de patente, especialmente de familiares, amigos ou colegas?

Sim. O apoio inicial mais importante veio do meu pai, que me disponibilizou os recursos necessários para aceder a aconselhamento jurídico e técnico, permitindo proteger a ideia e dar forma ao pedido, nomeadamente ao nível das reivindicações. Houve também uma validação informal interessante por parte do pai de um amigo coreano, que à época era quadro executivo da Samsung e me transmitiu algumas observações úteis sobre o conceito, embora de forma necessariamente limitada. Ainda assim, importa reconhecer que um processo desta natureza é financeiramente exigente. Com o tempo, deixei de ter meios para suportar as etapas subsequentes, e isso ajuda a explicar por que razão o pedido acabaria por ficar com o estatuto de abandonado.

Porque é que o pedido de patente permaneceu tanto tempo pouco visível?

Pelo que me foi dado a entender, houve recentemente uma espécie de busca por inventores africanos cujas ideias, criações ou contributos técnicos, por diferentes razões, não foram plenamente reconhecidos, valorizados ou monetizados no seu tempo. Acredito que, nesse processo, o meu nome tenha surgido naturalmente. Durante muitos anos, este pedido de patente existiu apenas como aquilo que de facto era: um registo técnico público, disponível para consulta, mas sem exposição mediática ou narrativa pública à sua volta.

E, curiosamente, durante muito tempo, nem eu próprio tive plena noção da extensão com que o documento vinha sendo citado; só mais recentemente percebi com maior clareza a densidade dessas referências e a permanência do pedido no circuito técnico. Talvez, na altura, não existissem as condições, os meios ou mesmo o interesse para olhar para esse trabalho para além da sua dimensão estritamente técnica. Só agora, ao ser reencontrado nesse esforço mais amplo de revisitar contributos africanos que ficaram fora do radar, é que passou a ganhar uma nova leitura — não apenas como documento de inovação, mas como parte de uma história maior sobre engenho, visão e valor produzido em África que nem sempre foi devidamente trazido à luz.

Considera que o pedido de patente influenciou a evolução destas tecnologias?

É difícil dizê-lo com certeza, porque a inovação tecnológica é sempre um processo cumulativo. O que se pode afirmar, com objectividade, é que o pedido foi publicado, integrou o registo técnico público e passou a ser citado em processos posteriores, o que revela relevância como referência técnica. Mais do que reclamar um impacto isolado, diria que o pedido antecipou com clareza uma direcção tecnológica que o sector viria efectivamente a seguir.

Que impacto teve a sua experiência no BNA na sua visão sobre inovação?

Entrei para o BNA num período institucionalmente exigente, numa fase de reajustamento interno após uma etapa conturbada. Fui colocado no Departamento de Gestão de Reservas, onde tive contacto com uma área particularmente sensível da actividade do Banco. Entre outros aspectos, acompanhei de perto o trabalho ligado à definição das Políticas de Investimento do BNA, num momento em que esse quadro ainda não existia de forma consolidada como hoje o entendemos. Para mim, foi uma experiência decisiva, porque mostrou que a verdadeira inovação, sobretudo em instituições críticas, não reside em soluções vistosas, mas na capacidade de criar método, reforçar critérios, organizar processos e dar solidez técnica à tomada de decisão.

Foi assessor do PCA do Banco Espírito Santo Angola. Que paralelos encontra entre a forma como enfrentaram os problemas nesse banco e a lógica da solução que concebeu para o sector automóvel?

Há paralelos muito claros. Em ambos os casos, tudo começa com um diagnóstico rigoroso do problema. Num banco em processo de intervenção e recapitalização, é preciso distinguir o que está saudável do que está deteriorado, identificar activos problemáticos, riscos ocultos e falhas de controlo. Num sistema tecnológico, a lógica é semelhante: mapear vulnerabilidades, pontos de falha e dependências críticas. Depois vem a estabilização e, por fim, a reconfiguração estrutural — no banco, através da revisão de processos, modelos de risco e governação; na tecnologia, através do redesenho da arquitectura e do reforço da fiabilidade do sistema.

No caso do então BESA, essa experiência mostrou que não bastava remendar: era necessária uma transformação mais profunda, que acabaria por conduzir ao Banco Económico. Foi também nesse contexto que analisámos diversos estudos de caso sobre a gestão de activos problemáticos e de crédito malparado, o que ajudou a consolidar a percepção de que a resposta não podia limitar-se à estabilização imediata da instituição, mas exigia igualmente um mecanismo estrutural para enfrentar os NPLs. Desse ambiente de diagnóstico, reflexão e procura de resposta acabaria por emergir, mais tarde, a RECREDIT, cuja estrutura inicial viria a integrar como um dos primeiros quadros.

Como vê o ecossistema africano de inovação?

Vejo o ecossistema africano de inovação como promissor, criativo e estruturalmente subfinanciado. Não se trata de um ecossistema fraco; trata-se, antes, de um ecossistema que já demonstrou capacidade de gerar soluções úteis em contextos adversos, mas que ainda não conseguiu converter plenamente essa criatividade em escala continental, profundidade tecnológica e densidade industrial comparáveis às regiões mais avançadas. Em suma, há inovação real em África, mas ainda falta, em muitos países, a massa crítica necessária para transformar essa inovação em poder económico duradouro.

Como reconhece áreas com potencial para produzir transformações estruturais?

Começo sempre pela observação rigorosa do problema real, tal como ele se manifesta na vida concreta das pessoas, das instituições ou dos mercados. Interessa-me menos a novidade pela novidade e mais a identificação de bloqueios persistentes, ineficiências recorrentes ou necessidades mal resolvidas que revelem falhas mais profundas do sistema. A partir daí, procuro distinguir o que é apenas uma dificuldade pontual daquilo que tem implicações estruturais e potencial para gerar transformação duradoura.

Depois, procuro três sinais centrais: inevitabilidade, fricção estrutural e mudança de arquitectura. A inevitabilidade ajuda a perceber se aquela transformação tenderá a impor-se com o tempo; a fricção estrutural revela onde o sistema perde eficiência, recursos ou confiança de forma repetida; e a mudança de arquitectura mostra se a solução em causa altera o funcionamento do sistema, em vez de apenas melhorar um detalhe. Para mim, uma oportunidade com impacto sistémico é precisamente essa: algo que não só resolve um problema imediato, mas também reorganiza processos, cria nova capacidade e produz efeitos duradouros.

O que introduziria de novo hoje no pedido de patente US 2008/0204556 A1?

De 2006 para cá, o mundo tecnológico transformou-se profundamente, e fê-lo a uma velocidade que poucos imaginavam. Naquela altura, a inteligência artificial ainda era vista como algo longínquo ou quase impossível, quase reservado ao imaginário tecnológico. Hoje, ela já faz parte das soluções concretas que redefinem sectores inteiros.Por isso, se revisitasse esse pedido de patente em 2026, acrescentaria inteligência artificial para classificação de eventos, fusão de sensores, reforço da cibersegurança e da integridade probatória, bem como armazenamento híbrido e gestão energética optimizada. O conceito evoluiria de simples vigilância passiva para uma lógica de inteligência operacional, segurança activa e capacidade de resposta em tempo real.

Por outro lado, está envolvido com o Cine Zunga Angola, que leva cinema ao ar livre às comunidades. Defende maior valorização do cinema?

Sim, vejo o Cine Zunga Angola como uma inovação cultural e de impacto social. Em 2023 escrevi um artigo em que defendi, entre outros pontos, a necessidade de utilizar o cinema — à semelhança do que aconteceu com o neorrealismo italiano do pós-guerra — como instrumento de reconciliação nacional e de coesão social. A ideia era simples: o cinema pode ser mais do que entretenimento; pode ser espaço de reflexão colectiva, reconstrução simbólica e diálogo entre pessoas que partilham o mesmo território, mas nem sempre experiências comuns.

Um amigo leu esse artigo e convidou-me a integrar o Cine Zunga Angola, e desde então o que tenho observado confirma essa intuição. O projecto leva cinema ao ar livre a comunidades fora dos circuitos tradicionais, mas o seu impacto vai além da cultura: cria pontos de encontro, reúne famílias, aproxima gerações e devolve ao espaço público uma função positiva de convivência.
Há episódios que ilustram isso de forma muito concreta. Numa das sessões, uma mãe desesperada, à procura do filho de oito anos desaparecido há alguns dias, encontrou-o ali, no meio da comunidade, a ver um filme. Para mim, isso simboliza algo maior: o projecto criou um espaço suficientemente seguro, atractivo e socialmente útil para reunir pessoas e reconstruir laços.

Os números também mostram essa relevância. Nos primeiros dois anos, o Cine Zunga realizou 128 sessões, alcançou 9 províncias e 47 municípios, reuniu mais de 100 mil espectadores e registou um crescimento de 166% entre o primeiro e o segundo ano. Estes dados revelam escala, capilaridade e consolidação. Mas, no domínio da inovação social e cultural, o essencial não está apenas no volume; está na transformação. Quando um projecto mobiliza comunidades, estimula a microeconomia local, reforça o sentimento de pertença e promove diálogo intergeracional, deixa de ser apenas um evento cultural e afirma-se como verdadeiro instrumento de coesão social.

O interesse da juventude em tecnologia e invenção precisa de que tipo de impulsos?

Primeiro, temos de construir soluções reais. África é hoje o continente mais jovem do mundo, com uma maioria da população abaixo dos 25 anos, e isso não é apenas um dado demográfico: é uma responsabilidade histórica e uma oportunidade única. A nossa geração vai viver as consequências do que for feito agora — ou do que for adiado — e os problemas que enfrentamos são concretos: energia, água, saúde, agricultura, educação, transportes, segurança, inclusão digital.

Aliás, o nosso continente tem tantas necessidades que a própria realidade nos coloca numa posição fértil para inovar; como se diz, a necessidade é a mãe de todas as invenções.

Se é assim, por que não nós? Por que não agora?

Construir localmente, porém, não significa pensar pequeno: temos de pensar global desde o primeiro dia, com produtos robustos, prova de conceito, capacidade de escala e disciplina de execução. E aqui entra a propriedade intelectual: temos de proteger o que criamos, não por paranoia, mas por maturidade — porque proteger autoria e registar trabalho é proteger a nossa capacidade de continuar a inovar e de atrair parceiros e investimento.

Mas há uma dimensão ainda maior: unidade e consciência colectiva. A filosofia africana de Ubuntu lembra-nos que “eu sou porque nós somos”; inovação não é um acto solitário, é ecossistema. As grandes transformações tecnológicas foram construídas por redes de colaboração, partilha de conhecimento e ambição comum.

E há uma vantagem histórica do nosso tempo: a África está a subir. Temos mais acesso a conhecimento, mais conectividade, mais exemplos de startups e mais integração regional do que há vinte anos; e a velocidade da mudança tecnológica permite-nos encurtar caminhos e saltar etapas. Não precisamos repetir exactamente a trajectória industrial do século XX — podemos avançar com energia distribuída, pagamentos digitais, saúde remota, educação assistida por tecnologia e agricultura inteligente, desde que tenhamos método, disciplina e instituições que não atrapalhem a inovação.

Por isso, a mensagem final é simples: temos de resolver problemas reais, proteger o que criamos e pensar grande desde o início — mas sobretudo temos de fazê-lo juntos. O futuro africano não está escrito. Somos nós que o vamos construir.

Enquanto economista, no que Angola deve apostar para acelerar o crescimento?

Na verdade, esta é uma questão sobre a qual venho reflectindo há mais de dez anos, a partir das minhas experiências e da observação atenta da trajectória da nação. Angola precisa de acelerar o seu desenvolvimento, mas parece-me que o modelo que nos trouxe até aqui, embora tenha servido uma determinada fase da nossa história, começa hoje a revelar limitações estruturais perante desafios socioeconómicos cada vez mais complexos.

Houve desenvolvimento, sem dúvida, mas esse desenvolvimento evidencia um problema de escalabilidade, isto é, dificuldade em expandir-se de forma equilibrada por todo o território nacional. Entre os factores que ajudam a explicar esse quadro, um dos mais relevantes será, talvez, a forte tradição de centralização, que tende a limitar a capacidade das províncias de realizarem plenamente o seu potencial económico e, por arrasto, a própria diversificação da economia.

Talvez tenha chegado o momento de uma verdadeira mudança de paradigma. A realidade económica e a própria lógica do desenvolvimento parecem apontar, de forma cada vez mais clara, para a necessidade de avançar com a descentralização fiscal, entendida na sua dimensão económica e funcional. Refiro-me, concretamente, à criação de condições para que as províncias possam promover o seu próprio desenvolvimento através da mobilização de recursos financeiros, da atracção de investimento, da realização de grandes projectos estruturantes e do estímulo à iniciativa económica nos seus próprios territórios.

Não se trata de enfraquecer o centro. Luanda deve continuar a ser o centro estratégico de orientação e coordenação nacional. Trata-se, isso sim, de permitir que Angola funcione com mais motores de crescimento, maior eficiência económica e maior capacidade de geração de riqueza em todo o território.

Ganharia o Estado, ganhariam as empresas, ganhariam as comunidades e ganharia o país. Acima de tudo, abrir-se-ia caminho para a geração de riqueza em escala muito maior. Esse é, a meu ver, um dos caminhos que pode colocar Angola numa trajectória de crescimento mais acelerado e de desenvolvimento mais amplo, equilibrado e sustentável.

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