Finanças & Wall Street

Director de Estruturação da Kassai Capital: “Existem condições para perseguir, de forma consistente, o benchmark de 18%”

Bernardo Bunga

24 Setembro, 2026 - 20:33

Bernardo Bunga

24 Setembro, 2026 - 20:33

O Kassai Evolution I, fundo apresentado pela Kassai Capital como um instrumento destinado à preservação e valorização do capital, com um horizonte de investimento de três anos, foi tema da entrevista ao director de Estruturação da Kassai Capital, Giovanni Peliganga, que explica a estratégia do fundo, a composição da carteira e os factores considerados pela sociedade gestora na procura de retorno e preservação do capital dos investidores. Acompanhe a entrevista

O Kassai Evolution I é apresentado como um instrumento destinado à preservação e valorização do capital. Na prática, que necessidade concreta do investidor angolano identificaram para justificar a criação deste fundo e que lacuna existente no mercado pretendem preencher com o Evolution I?

Identificámos uma procura crescente por soluções que permitam ao investidor não apenas preservar o poder de compra, mas também participar activamente nas oportunidades de valorização que o mercado angolano começa a oferecer.

O Kassai Evolution I foi concebido precisamente para preencher esse espaço. Através de um único veículo, o investidor passa a ter acesso a uma carteira diversificada, gerida profissionalmente e com capacidade para combinar diferentes classes de activos, incluindo instrumentos com exposição ou mecanismos de cobertura cambial.

Há também uma diferença importante relativamente às soluções de curto prazo. Um fundo orientado para liquidez e preservação de capital no curto prazo tem, naturalmente, menor capacidade para investir em oportunidades que exigem um horizonte mais longo de maturação. O Evolution I, com um horizonte de três anos, permite-nos capturar oportunidades associadas ao desenvolvimento do mercado de capitais, incluindo privatizações, operações no mercado accionista e outras situações de valorização que dificilmente poderiam ser aproveitadas por uma estratégia exclusivamente de curto prazo.

A Kassai apresenta como objectivo a preservação e valorização do capital, mas o prospecto classifica o Evolution I com perfil de risco agressivo. Como pretendem conciliar estes dois elementos?  

Não vemos estes dois elementos como contraditórios. A preservação de capital, no Evolution I, deve ser entendida numa perspectiva de médio e longo prazo e através de uma gestão profissional da relação entre risco e retorno.

O perfil do Fundo dá-nos maior flexibilidade para procurar oportunidades de valorização que não seriam compatíveis com estratégias exclusivamente conservadoras. Essa flexibilidade pode traduzir-se em maior volatilidade no curto prazo, mas é precisamente o horizonte de três anos que permite à gestão acomodar os ciclos de mercado e procurar capturar valor ao longo do tempo.

Por isso, o Evolution I destina-se a investidores que compreendem que podem existir oscilações temporárias, mas que procuram, em contrapartida, um potencial de valorização superior ao das soluções mais conservadoras.

“O mercado angolano tem vindo a tornar-se mais diversificado”

O fundo surge num período de maior desenvolvimento do mercado de capitais angolano. Que oportunidade concreta identificou a Kassai na actual estrutura do mercado que não estava suficientemente explorada e que levou-os a concluir que este era o momento adequado para lançar o Evolution I?

O mercado angolano tem vindo a tornar-se mais diversificado, com uma oferta crescente de instrumentos financeiros e uma participação cada vez mais relevante de investidores institucionais e particulares. Neste contexto, identificámos espaço para soluções de gestão activa que combinem diferentes classes de activos e permitam capturar oportunidades que, pela sua natureza, não são normalmente acessíveis através de estratégias exclusivamente conservadoras.

O Evolution I surge precisamente como uma alternativa para investidores que, procurando uma solução mais alinhada com o seu perfil, procuram potencializar a valorização do seu capital e alcançar retornos potencialmente superiores aos oferecidos por fundos de perfil mais conservador, beneficiando simultaneamente de uma gestão profissional, activa e diversificada.

O prospecto estabelece uma referência de 18% de rendibilidade anual. Que condições terão de se verificar na carteira, em termos de composição dos activos, desempenho dos mercados e decisões de gestão, para que esse objectivo seja alcançado de forma sustentável? Há algum cenário em que a Kassai admitiria que essa meta não é alcançável?

Entendemos que existem condições para perseguir de forma consistente o benchmark de 18%, embora seja importante sublinhar que se trata de uma referência de desempenho e não de uma garantia de rentabilidade.

A capacidade de procurar esse nível de retorno resulta sobretudo da flexibilidade da carteira. Não estamos dependentes de uma única classe de activos ou de uma única fonte de rendimento. Podemos ajustar a alocação em função das condições de mercado, seleccionar oportunidades com diferentes perfis de risco-retorno e gerir activamente a liquidez e a exposição da carteira. Essa capacidade de adaptação constitui uma das principais vantagens do Evolution I.

Naturalmente, poderão existir períodos em que as condições de mercado aconselhem uma postura mais defensiva. Contudo, nas condições actualmente existentes e considerando as oportunidades que perspectivamos no mercado, acreditamos que o Fundo dispõe dos instrumentos e da flexibilidade necessários para perseguir os 18% e procurar superá-los sempre que as condições de mercado o permitam.

O fundo prevê uma comissão de gestão de 2% ao ano e uma comissão de desempenho associada à rendibilidade obtida acima da referência estabelecida. Depois de consideradas 3 estas comissões e os restantes encargos do fundo, qual é, realisticamente, a rendibilidade líquida que a Kassai espera proporcionar ao investidor e como será assegurada a transparência sobre o custo total do investimento?

Num fundo de investimento não seria correcto fixar antecipadamente uma rentabilidade líquida, porque o resultado dependerá da evolução dos activos que integram a carteira e das condições do mercado. O que podemos assegurar é que toda a nossa estratégia estará orientada para maximizar a rentabilidade líquida ajustada ao risco para o participante.

Importa igualmente olhar para a estrutura de comissões numa perspectiva de alinhamento de interesses. A componente de desempenho está associada à capacidade efectiva de criação de valor acima da referência estabelecida, criando um incentivo para que a Sociedade Gestora procure entregar resultados competitivos aos investidores.

Ao mesmo tempo, haverá total transparência. Os participantes poderão acompanhar o valor das unidades de participação, o desempenho do Fundo, as principais posições da carteira e os encargos suportados.

Os 18% são, portanto, um benchmark e não uma promessa. A ambição da equipa de gestão é utilizar a flexibilidade do Evolution I para identificar oportunidades que permitam atingir e, em condições favoráveis, superar essa referência.

“Num Fundo com as características do Evolution I, não avaliamos o risco de forma isolada”

O prospecto permite que até 50% do valor líquido global do fundo esteja exposto a activos em moeda estrangeira ou indexados ao dólar. Esta exposição será utilizada sobretudo como mecanismo de protecção perante o risco cambial do kwanza ou como instrumento para procurar maior rendibilidade? E qual será, na prática, a estratégia da Kassai para decidir quando aumentar ou reduzir essa exposição?

As duas vertentes são importantes e, na nossa perspectiva, complementares. A possibilidade de exposição a activos denominados ou indexados a moeda estrangeira constitui, por um lado, um instrumento adicional de diversificação e protecção parcial do património perante determinados movimentos cambiais. Por outro, amplia significativamente o universo de oportunidades que podem ser consideradas pela equipa de gestão.

A nossa decisão não será determinada apenas por uma expectativa sobre a evolução do Kwanza. Será feita com base numa análise conjunta das condições macroeconómicas e da atractividade relativa das oportunidades disponíveis. A vantagem do Evolution I está exactamente nessa flexibilidade: não somos obrigados a manter uma exposição cambial fixa. Podemos aumentá-la ou reduzi-la em função da leitura do mercado e daquilo que, em cada momento, entendermos oferecer a melhor relação entre protecção e potencial de retorno.

O prospecto identifica riscos de crédito, mercado, taxa de juro, câmbio, liquidez, contraparte, regulação e risco operacional. Entre estes riscos, qual considera hoje mais 4 susceptível de afectar materialmente o desempenho do Evolution I e que mecanismos concretos estão previstos para o medir, limitar e gerir?

Num Fundo com as características do Evolution I, não avaliamos o risco de forma isolada. A nossa capacidade de gestão de risco assenta num modelo multidimensional, profissional e integrado no próprio processo de decisão de investimento.

Este modelo combina limites de exposição, diversificação por classes de activos e emitentes, análise contínua da qualidade dos emitentes e contrapartes, testes de liquidez e acompanhamento sistemático das condições de mercado. Isto permite-nos avaliar não apenas a rentabilidade potencial de uma oportunidade, mas também como essa oportunidade altera o risco global da carteira.

Para nós, gestão de risco não significa evitar oportunidades. Significa criar as condições para as aproveitar de forma disciplinada. É precisamente uma estrutura robusta de risco que nos dá confiança para adoptar uma gestão mais activa, identificar oportunidades e procurar retornos superiores sem perder o controlo sobre o perfil global do Fundo..

O Evolution I poderá investir até 20% do seu património noutros organismos de investimento colectivo, incluindo fundos geridos pela própria Kassai. Que mecanismos de governação e controlo serão aplicados para garantir que uma decisão de investir num fundo gerido pela própria Sociedade Gestora é tomada exclusivamente em função do interesse dos participantes e não cria conflitos de interesse?

Qualquer decisão terá de obedecer exclusivamente ao interesse dos participantes e à política de investimento do Evolution I. Serão aplicados os mecanismos internos de gestão de conflitos de interesse, segregação de funções, controlo de compliance e fundamentação das decisões de investimento, garantindo que a escolha seja economicamente justificável e comparável com alternativas disponíveis no mercado.

Bernardo Bunga: O valor da unidade de participação será calculado diariamente. Para além de saber que a unidade valorizou ou desvalorizou, que informação terá efectivamente o investidor para compreender quais foram os activos, decisões de gestão ou movimentos de mercado que determinaram essa variação?

Queremos que o investidor tenha muito mais do que um número diário associado à sua unidade de participação. Queremos que compreenda como o seu património está a ser gerido e de onde resulta a criação de valor.

Nos nossos reportes periódicos, os participantes poderão acompanhar a composição da carteira, as principais classes de activos, a evolução da rentabilidade e os factores que mais contribuíram, positiva ou negativamente, para o desempenho.

Esta transparência faz parte da forma como a Kassai entende a gestão de activos. Já disponibilizamos relatórios mensais relativamente aos fundos sob nossa gestão e pretendemos manter esse nível de proximidade com os participantes do Evolution I.

Acreditamos que um investidor mais informado é também um investidor mais confortável com decisões de médio e longo prazo. Por isso, não queremos apenas apresentar resultados; queremos também explicar a estratégia e os principais factores que estiveram na origem desses resultados.

Para o investidor com acesso a esta entrevista e que ainda não conhece profundamente os fundos de investimento: qual é o principal erro que gostaria de evitar que um potencial participante cometesse ao decidir investir no Evolution I?

Diria que não seria correcto avaliar o Evolution I exclusivamente pela rentabilidade esperada e não pelo conjunto da proposta de valor. Este Fundo foi criado para investidores que procuram maior potencial de valorização, diversificação e acesso a oportunidades que exigem um horizonte de investimento mais longo. Isso significa aceitar que poderão existir períodos de volatilidade ao longo do percurso.

O mais importante é existir alinhamento entre o perfil do investidor, os seus objectivos e o horizonte de três anos do Fundo. Quando esse alinhamento existe, as oscilações de curto prazo deixam de ser analisadas isoladamente e passam a ser enquadradas numa estratégia mais ampla de criação de património.

Nesse sentido, o Evolution I representa uma oportunidade para o investidor diversificar as suas aplicações e participar de forma profissional no crescimento e aprofundamento do mercado de capitais angolano.

Finalmente, se daqui a três anos olharmos para o Fundo e dissermos que foi um sucesso, quais são os resultados concretos que gostaria de ver, em termos de rendibilidade, número de investidores, profundidade do mercado e confiança dos aforradores, para considerar cumprida a missão deste projecto?

Naturalmente, queremos olhar para o Evolution I com um desempenho consistente, competitivo e capaz de criar valor para os seus participantes.

Mas a nossa ambição é mais ampla. Queremos ter uma base crescente e diversificada de investidores, demonstrar que uma gestão profissional e activa pode transformar oportunidades do mercado em criação efectiva de património e contribuir para que os investidores angolanos tenham cada vez mais alternativas para aplicar as suas poupanças.

Gostaríamos também de olhar para trás e verificar que o Evolution I conseguiu participar em momentos importantes do desenvolvimento do nosso mercado – seja através de privatizações, do crescimento do mercado accionista, de emissões corporativas ou de outras oportunidades que surjam ao longo deste ciclo.

Se, ao final dos três anos, tivermos contribuído para gerar retornos competitivos, aumentar a confiança nos fundos de investimento e aproximar mais investidores do mercado de capitais, teremos cumprido uma parte importante da nossa missão.

O verdadeiro sucesso será transformar o Kassai Evolution I numa referência de gestão activa em Angola e numa solução em que os investidores confiem para diversificar, proteger e fazer crescer o seu património ao longo do tempo.

 

Partilhar nas Redes Sociais

Bernardo Bunga

EDITOR DE ECONOMIA & OIL

Bernardo Bunga é Editor de Economia & Oil no O Telegrama e possui mais de 5 anos de experiência em análise económica e planeamento financeiro. Licenciado em Economia pela Universidade Católica de Angola (UCAN), detém, também, o bacharel em Gestão Financeira pela Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto (UAN). Fez parte da equipa de consultores que prestou consultoria ao Banco Mundial, ao Ministério do Planeamento e ao Ministério das Finanças para a harmonização de salários e subsídios dos projectos da representação em Angola do Banco Mundial. Actuou como consultor na Global Education e na Knowledge – Consultores & Auditores. Possui formações em planeamento e estratégia de tomada de decisão, teoria das restrições – Lean e Six Sigma (TLS), Excel Avançado e Análise de Dados.

+ LIdas

Leia também

erro: Conteúdo protegido!!