Finanças & Wall Street

Isabel Espírito Santo: “O cliente não falhou, o sistema é que ainda não chegou até ele”

Bernardo Bunga

10 Julho, 2026 - 17:14

Bernardo Bunga

10 Julho, 2026 - 17:14

“A inclusão financeira não é uma agenda paralela, não é uma agenda de crescimento que deve ser ignorada; é uma condição para se chegar ao crescimento”, afirmou a número 1 da Comissão Executiva do Banco Millennium Atlântico.

A inclusão financeira esteve no centro dos debates da primeira edição das Conversas de Luanda  – Think Tank, realizada, nesta quarta-feira, 8 de Julho, pela revista O Telegrama e juntou representantes femininas do sector financeiro nacional para discutir os desafios dos mercados financeiros e emergentes.

Isabel Espírito Santo, Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Banco Millennium Atlântico (BMA), apresentou uma reflexão subordinada ao tema “Incluir para Impactar”, centrada nos desafios da inclusão financeira em Angola e na necessidade de aproximar o sistema financeiro das populações ainda excluídas.

Durante a sua intervenção, a gestora defendeu que a exclusão financeira não deve ser interpretada como uma incapacidade dos cidadãos em aderirem aos serviços bancários, mas como uma consequência das limitações do próprio sistema em alcançar determinados segmentos da população.

“O cliente não falhou, o sistema é que ainda não chegou até ele”, afirmou Isabel Espírito Santo, ao abordar os constrangimentos enfrentados por cidadãos, sobretudo das zonas rurais, que continuam a encontrar barreiras no acesso aos serviços financeiros.

Para Isabel Espírito Santo, existem milhares de angolanos que diariamente contribuem para a economia nacional, criam valor e desenvolvem actividades produtivas, mas permanecem afastados do sistema financeiro formal.

“Gostava de vos falar de pessoas que fazem a sua parte, contribuem para o nosso país, estão todos os dias a gerar valor de forma intencional, mas não têm acesso a um sistema financeiro”, referiu.

A PCE do BMA chamou atenção para os níveis ainda reduzidos de inclusão financeira, sobretudo entre as mulheres e as populações rurais. De acordo com os dados apresentados, apenas 29% das mulheres angolanas estão integradas no sistema financeiro, enquanto nas zonas rurais a taxa de acesso aos serviços financeiros pode situar-se em torno dos 15%.

Para Isabel Espírito Santo, estes indicadores devem servir como um alerta para todos os intervenientes do sector, uma vez que a exclusão de uma parte significativa da população representa também uma limitação ao potencial económico do país.

“Quando mais de metade da nossa população está fora do sistema financeiro, estamos perante uma economia onde muitos permanecem presos à informalidade”, destacou, acrescentando que esta realidade reduz o potencial das famílias, das empresas e condiciona o desenvolvimento socioeconómico de Angola.

A executiva considerou que a inclusão financeira deve deixar de ser vista como uma agenda paralela, passando a ser uma condição para o crescimento económico. Para sustentar esta posição, citou o Angola Economic Update, publicado pelo Banco Mundial em 2025, dedicado exclusivamente à inclusão financeira, cuja principal conclusão aponta para a inclusão como uma condição necessária para alcançar um crescimento económico mais abrangente.

“A inclusão financeira não é uma agenda paralela, não é uma agenda de crescimento que deve ser ignorada; é uma condição para se chegar ao crescimento”, afirmou.

Na sua visão, este desafio não pertence apenas às pessoas que permanecem fora do sistema financeiro, mas sim de todos. “A inclusão financeira não é um desafio daqueles que não estão incluídos. A inclusão financeira é um desafio de todos nós”.

Isabel Espírito Santo destacou ainda que uma verdadeira estratégia de inclusão financeira deve assentar em três dimensões fundamentais: garantir o acesso, facilitar o uso dos serviços financeiros e assegurar a qualidade das soluções disponibilizadas aos cidadãos.

Para a presidente da Comissão Executiva do BMA, o objectivo final não deve ser apenas convencer mais pessoas a aderirem ao sistema bancário, mas garantir que o próprio sistema financeiro seja capaz de chegar até elas e responder às suas necessidades reais.

“A inclusão financeira real não é convencer as pessoas a entrarem no sistema financeiro bancário; é fazer com que o sistema financeiro chegue até elas e que sirva as grandes necessidades das pessoas”, concluiu.

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