A saída de companhias aéreas que operam em Angola não se explica apenas com as dificuldades cambiais e o preço dos combustíveis da aviação. Deve ser colocada uma questão menos confortável: que previsibilidade regulatória o Estado angolano oferece aos operadores aéreos?
De acordo com IATA (2025), mais de 1,2 mil milhões de dólares em receitas das companhais aéreas encontram-se bloqueados nos mercados com níveis elevados de restrições cambiais, maioritariamente em África e no Médio Oriente. Neste report, Angola entra na lista de 10 países apontados como responsáveis por 89% dos fundos bloqueados, com um montante de 81 milhões de dólares retidos. A Argélia está no top desta lista, com 307 milhões de dólares retidos. A Etiópia também está, com 54 milhões. Ainda assim, estes dois últimos mercados continuam a atrair operadoras internacionais e a manter uma conectividade relevante. Portanto, o factor cambial não é de todo plausível.
A Brussels Airlines abandonou Luanda em 2025. Ainda não se falava da crise global do petróleo. Em sentido contrário, várias companhias internacionais reforçaram presença noutros países de África, v.g., Argélia e Etiópia.
Dados oficiais da IATA (2025) indicam 14 companhias aéreas a operar no mercado angolano em 2025, contra 16 em 2015. Este report comparativo refere também que 61% das rotas de 2015 ficaram canceladas. Na aviação não contam só as companhias aéreas que saem mas também as que não entram. Ou seja, o Novo Aeroporto ainda não gerou o efeito atracção (hub effect) e novas operadoras relevantes (new entrance) não entraram. A actual crise do petróleo não explica a crise da aviação em Angola. O choque energético é impactante mas não estruturante.
O maior problema da aviação em Angola não é a imprevisibilidade económica. É a imprevisibilidade regulatória. Nenhum aeroporto compensa quando o acesso ao mercado é formalmente regulado, mas informalmente administrado.
- Autor da obra “Os Slots Aeroportuários e a Nova Regulação da Aviação Civil em Angola”
