A diversificação económica continua a ser uma das ambições mais importantes para o futuro de Angola. Num país que conhece bem os riscos associados à dependência excessiva do petróleo, a necessidade de criar novas fontes de crescimento, gerar emprego e aumentar a resiliência da economia tornou-se uma prioridade praticamente consensual. Ao longo dos últimos anos, essa ambição tem orientado políticas públicas, programas governamentais e uma parte significativa do debate económico nacional.
No entanto, existe uma questão que raramente é colocada com a profundidade necessária.
Grande parte da discussão sobre diversificação continua organizada em torno de sectores. Fala-se de agricultura, indústria, pescas, turismo, energia, mineração ou logística. Identificam-se sectores prioritários, definem-se metas de produção e criam-se incentivos para estimular determinadas actividades. Esta abordagem é compreensível e tem utilidade prática, mas também pode criar uma ilusão de progresso estratégico.
Sectores são uma forma útil de organizar a economia. Não são, por si só, uma estratégia.
Dentro de cada sector coexistem actividades profundamente diferentes, com exigências distintas, níveis de sofisticação diferentes e, sobretudo, capacidades muito diferentes de gerar e capturar valor. Na agricultura, por exemplo, é possível produzir matéria-prima, processar alimentos, desenvolver sistemas de conservação, controlar redes logísticas ou distribuir produtos para mercados regionais. Todas estas actividades pertencem ao mesmo sector, mas representam posições económicas radicalmente distintas.
Por isso, a questão central não deve limitar-se a saber em que sectores Angola deve competir, mas sim em que posições das cadeias de valor o país consegue construir vantagem competitiva real e capturar valor de forma sustentável.
A diversificação começa pelos sectores, mas a competitividade constrói-se nas cadeias de valor.Esta distinção é particularmente importante porque criar valor não é necessariamente o mesmo que capturar valor.
Ao longo das últimas décadas, muitas economias africanas especializaram-se nas fases iniciais das cadeias económicas globais, participando sobretudo através da extracção de recursos, da produção primária e da exportação de matérias-primas. Em contrapartida, as actividades ligadas à transformação, distribuição, acesso ao mercado, desenvolvimento tecnológico ou construção de marcas permaneceram frequentemente concentradas noutras geografias. Angola não é uma excepção a esta realidade.
Uma parte significativa da estrutura económica do país continua assente em actividades onde a capacidade de captura de valor é relativamente limitada quando comparada com outras posições dentro das mesmas cadeias económicas. Isto ajuda a explicar porque razão algumas economias conseguem gerar níveis de prosperidade muito superiores sem necessariamente possuírem mais recursos naturais ou maior capacidade produtiva.
O valor económico raramente é distribuído de forma uniforme ao longo de uma cadeia de valor. É precisamente aqui que surge um dos maiores riscos associados à forma como pensamos a diversificação económica. Existe a tendência de assumir que a simples substituição de uma actividade por outra representa, por si só, uma transformação estrutural da economia. Mas essa conclusão nem sempre é verdadeira.
Substituir petróleo por agricultura, mineração ou pescas pode ser importante, mas não será suficiente se o país permanecer concentrado em actividades primárias, indiferenciadas e vulneráveis aos mesmos factores externos que limitam a captura de valor noutras cadeias económicas.
Mudar de sector sem mudar de posição na cadeia de valor pode significar apenas replicar o mesmo modelo económico numa actividade diferente.
Naturalmente, reconhecer este desafio não significa defender que Angola deve abandonar a produção ou ignorar a necessidade de fortalecer a sua base produtiva. Pelo contrário. A capacidade de produzir continua a ser uma condição essencial para qualquer estratégia de desenvolvimento económico sustentável. No entanto, também seria um erro assumir que a transformação económica depende exclusivamente do aumento da produção.
A realidade angolana é marcada por restrições importantes ao nível das divisas, do financiamento, da capacidade institucional, das infra-estruturas e da qualificação de recursos humanos. Estas limitações tornam particularmente relevante a necessidade de fazer escolhas estratégicas claras. Nenhum país dispõe dos recursos necessários para competir em todas as actividades, em todos os sectores e em todas as fases das cadeias económicas ao mesmo tempo. É precisamente por isso que a escolha da posição na cadeia de valor se torna tão importante.
A decisão estratégica não deve partir apenas da identificação das actividades que geram maior valor em termos absolutos. Deve partir da identificação das actividades onde é possível capturar valor e construir vantagem competitiva real com base nos recursos disponíveis ou nas capacidades que podem ser desenvolvidas de forma credível no curto e médio prazo.
Quando os recursos são escassos, a vantagem competitiva nasce tanto das escolhas feitas como das escolhas recusadas. É esta lógica que deve orientar a forma como Angola pensa a sua inserção económica regional e internacional.
Em algumas cadeias agro-industriais, por exemplo, a oportunidade estratégica pode residir menos na expansão da produção primária e mais no desenvolvimento de capacidades ligadas ao processamento, conservação, embalagem e distribuição. Na logística, a posição geográfica do país pode criar vantagens relevantes na ligação entre mercados regionais. Na energia, o potencial económico poderá estar não apenas na exportação de recursos, mas também na utilização dessa capacidade para sustentar actividades produtivas capazes de gerar maior valor acrescentado.
A resposta concreta poderá variar de sector para sector. O princípio, porém, permanece o mesmo: o desenvolvimento económico depende menos da quantidade de actividades em que um país participa e mais da posição que consegue ocupar dentro dessas actividades.
Talvez por isso o verdadeiro desafio da diversificação económica em Angola não seja apenas encontrar novos sectores para desenvolver.
Talvez seja, acima de tudo, identificar as posições onde o país consegue construir vantagem competitiva, capturar valor de forma sustentável e concentrar recursos escassos com maior probabilidade de sucesso.
Porque uma economia não se transforma apenas por participar em mais sectores. Transforma-se quando ocupa posições onde consegue capturar valor, construir vantagem e sustentar competitividade ao longo do tempo.
A verdadeira questão para Angola já não é apenas como diversificar a economia, mas como reposicionar a economia.
