No seu comunicado de cinco parágrafos, datado de 29 de Maio, o Banco Económico começa por colocar em causa “o rigor e a imparcialidade” da notícia publicada pelo O Telegrama, sugerindo mesmo que a instituição deveria ter sido ouvida antes da publicação da matéria.
Entretanto, tratando-se de dados oficiais e públicos, divulgados pelo próprio Banco, o rigor jornalístico recomenda que a responsabilidade de obter esclarecimentos se impõe quando em causa estiverem o cruzamento e interpretação desses dados. E não foi este o caso, uma vez que O Telegrama se limitou a reportar os números contidos nas demonstrações financeiras trimestrais da entidade.
Importa salientar que a matéria não questionou o lucro alcançado em 2025, nem ignorou a recuperação registada nesse exercício. A notícia analisou a evolução mais recente das contas do banco, que testemunham um regresso aos prejuízos no primeiro trimestre de 2026 e a persistência de indicadores patrimoniais preocupantes e que, indiscutivelmente, evidenciam sinais de falência técnica.
Estes números relativos aos resultados líquidos ajudam a contextualizar a discussão suscitada pelo comunicado do Banco Económico. Embora o banco destaque o lucro de AOA 13,78 mil milhões obtido no exercício económico transacto como prova da sua recuperação financeira, uma verificação mais abrangente da evolução dos resultados demonstra que esse desempenho positivo ocorreu após um período de perdas significativas.
De acordo com os Relatórios e Contas, entre 2020 e 2024, a instituição registou resultados positivos apenas em 2021. Em 2020, o prejuízo atingiu AOA 137,8 mil milhões, seguindo-se um lucro de AOA 173 mil milhões em 2021. Em 2022, o banco voltou a apresentar perdas de AOA 37,9 mil milhões, situação que se agravou substancialmente em 2023, quando o prejuízo alcançou AOA 297,9 mil milhões, o maior resultado negativo do período em análise. Em 2024, apesar da melhoria registada, a instituição continuou a operar no vermelho, com perdas de AOA 3,37 mil milhões.
Depois de ter permanecido em situação de prejuízo durante três anos consecutivos (2022-2024), foi apenas em 2025 que o Banco Económico conseguiu regressar aos lucros, ao reportar um resultado líquido de AOA 13,78 mil milhões. Contudo, foi precisamente a partir da dimensão desse lucro, analisada à luz do histórico recente, que O Telegrama avaliou o desempenho financeiro do banco no primeiro trimestre do ano em curso. Assim, e como os números da própria instituição não deixam margem para dúvidas, o ganho obtido em 2025 representa apenas uma pequena parcela dos prejuízos acumulados nos três anos anteriores, estimados em AOA 339,21 mil milhões.
Importa realçar que, do ponto de vista da análise financeira, a principal questão não é saber se o Banco Económico teve lucro em 2025. Os números revelam que a evolução dos resultados ao longo dos últimos anos continua marcada por uma elevada volatilidade e por dificuldades persistentes na consolidação de uma trajectória sustentável de ganhos. O prejuízo de AOA 2,88 mil milhões (US$ 3,16 milhões) registado nos primeiros 90 dias de 2026 não apenas representa uma deterioração de 113,57% face aos resultados de AOA 21,21 mil milhões (US$ 23,26 milhões) alcançados no período homólogo de 2025, como também espelha o regresso a uma realidade de profunda instabilidade e inconsistência financeira nas contas da entidade bancária que, nos últimos cinco anos, teve quatro presidentes da Comissão Executiva (João Quintas, Carlos Duarte, Victor Cardoso e Jorge Ramos).
