Opinião

A queda da inflação devolve o poder de compra?

Bernardo Bunga

Editor-Chefe

23 Junho, 2026 - 08:56

23 Junho, 2026 - 08:56

Bernardo Bunga

Editor-Chefe

A trajectória da inflação em Angola ao longo da última década não pode ser analisada de forma isolada. Entre 2016 e 2025, a economia nacional atravessou um dos períodos mais desafiantes da sua história recente, marcado por recessões consecutivas, forte depreciação cambial, ajustamentos macroeconómicos e uma lenta recuperação da actividade económica. Neste contexto, de acordo com os dados do INE, entre 2016-2025, o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) situou-se em apenas 0,82%, um desempenho que retrata as dificuldades enfrentadas pelo país para gerar riqueza de forma consistente e sustentável.

Foi precisamente neste ambiente de crescimento económico comedido e de profundas transformações estruturais que a inflação evoluiu de 29,72% em Maio de 2016 para 10,88% em Maio de 2026. Em termos absolutos, trata-se de uma redução de 18,84 pontos percentuais (p.p.). Contudo, esta desaceleração deve ser interpretada à luz de outras variáveis fundamentais, em particular da evolução da taxa de câmbio, que passou de 165 kwanzas por dólar em 2016 para mais de 913 kwanzas por dólar em Maio de 2026, traduzindo uma depreciação superior a 450% da moeda nacional.

Assim, embora a desaceleração da inflação constitua um sinal compreensível de maior estabilidade económica, a sua leitura exige uma perspectiva mais abrangente. A melhoria deste indicador ocorreu num contexto em que a economia cresceu de forma limitada e os consumidores enfrentaram uma perda significativa do poder de compra resultante dos sucessivos ajustamentos cambiais e dos aumentos acumulados dos preços. Por essa razão, a análise da actual trajectória inflacionista deve ir além dos números e procurar compreender em que medida esta estabilidade representa uma mudança estrutural da economia angolana ou apenas uma fase favorável dentro de um processo ainda em consolidação.

Importa destacar que a inflação é, frequentemente, um dos indicadores económicos mais mal interpretados pela opinião pública. Quando a inflação diminui, isso não significa que os preços estejam a baixar. Significa apenas que continuam a aumentar, mas a um ritmo mais lento. Esta distinção é essencial para compreender porque a percepção das famílias nem sempre acompanha a melhoria dos indicadores macroeconómicos. Embora a inflação tenha desacelerado de forma acentuada, os preços dos bens e serviços acumulam aumentos significativos ao longo da última década, o que continua a afectar o poder de compra dos consumidores.

Para compreender esta realidade é necessário revisitar o contexto económico vivido por Angola desde 2016. Naquele ano, a economia encontrava-se em recessão, registando uma contracção do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,77%, consequência dos efeitos prolongados da crise petrolífera iniciada em 2014. A forte dependência das exportações de petróleo reduziu a capacidade do país de gerar divisas quando os preços internacionais da matéria-prima caíram, provocando pressões significativas sobre as reservas internacionais e sobre o mercado cambial.

Os efeitos desta crise reflectiram-se de forma clara na trajectória do kwanza. Em 2016, a taxa de câmbio situava-se em 165 kwanzas por dólar. Nos anos seguintes, a moeda nacional sofreu sucessivas desvalorizações, atingindo 307 kwanzas por dólar em 2018, 477 em 2019 e 650 em 2020. Este movimento foi particularmente intenso entre 2018 e 2020, período em que as desvalorizações anuais da taxa de câmbio chegaram a ultrapassar os 85%, 55% e 36%, respectivamente. Numa economia fortemente dependente das importações, a depreciação cambial traduz-se inevitavelmente em preços mais elevados para alimentos, medicamentos, equipamentos e outros bens essenciais, alimentando as pressões inflacionistas.

Ao mesmo tempo, o desempenho económico manteve-se frágil. Após uma recuperação temporária em 2017 e 2018, quando o PIB cresceu 1,26% e 4,09%, respectivamente, a economia voltou a registar taxas negativas em 2019 (-1,20%) e 2020 (-4,91%), agravadas pelos efeitos da pandemia da Covid-19. Embora em 2021 tenha sido observada uma recuperação significativa de 8,25%, os anos seguintes continuaram a revelar alguma volatilidade.

Os números que apresento ajudam a explicar porque os episódios de redução da inflação (desinflação) observados ao longo da década não foram suficientes para assegurar um aumento do poder de compra das famílias.

Nos últimos dois anos, contudo, começaram a surgir sinais mais consistentes de “estabilização macroeconómica”. A inflação iniciou uma trajectória descendente mais sólida a partir de meados de 2024, quando atingiu 31,09%, desacelerando posteriormente até aos actuais 10,88% verificado em Maio do corrente ano. Esta evolução coincide com um período de maior estabilidade cambial. Depois da forte depreciação observada em 2023, quando o kwanza perdeu cerca de 64,55% do seu valor face ao dólar, as variações cambiais tornaram-se praticamente residuais em 2025 e no primeiro trimestre de 2026.

Embora o crescimento económico tenha melhorado nos últimos anos, com o PIB a expandir-se 3,29% em 2024, 5,13% em 2025 e 5,32% no primeiro trimestre de 2026, os benefícios deste crescimento ainda não são plenamente sentidos pela população. O rendimento real das famílias continua condicionado pelos aumentos acumulados dos preços ao longo da última década, o que explica porque muitos cidadãos mantêm uma percepção de deterioração do custo de vida, apesar da melhoria dos indicadores macroeconómicos.

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