No meu livro “Angola-Desafios e Oportunidades no Século XXI”, recentemente publicado, analiso com alguma profundidade e preocupação as alternativas para diversificar a economia do país.
Todos entendemos que o petróleo com que fomos abençoados não é eterno e que o futuro se deve construir a partir de agora e com urgência.
Um sector de que se fala com frequência e consenso é o do turismo. Não há dúvida de que o sector do turismo- bem gerido- se pode converter num poderoso motor de desenvolvimento económico e social: Gera divisas, cria emprego e dinamiza economias locais. A flexibilização dos requisitos migratórios (vistos de turismo) e a desvalorização do Kwanza tornaram Angola muito mais atractiva para visitantes internacionais. A isso se soma a recente inauguração do novo aeroporto internacional Dr. António Agostinho Neto.
Existem destinos com com uma atracção singular -como a Torre Eiffel- que actua como um íman e constitui a base sólida de uma indústria turística.
Angola encontra-se ainda distante dos grandes mercados emissores de turismo. Os países vizinhos, aportam pouco volume. Toda a população da Namíbia caberia num único bairro de Luanda e só pequenas minorias, na RDC e Zâmbia contam com poder aquisitivo suficiente para sustentar uma indústria turística angolana de escala.
Esta realidade coloca Angola perante um duplo desafio estratégico: Fortalecer o mercado interno e ao mesmo tempo identificar a sua “Torre Eiffel”, uma atracção única, e irrepetível que não pode ser encontrada em outros destinos e que desperte o interesse do mercado internacional. Um ícone capaz de gerar o “efeito chamada”, atraindo viajantes que antes não consideravam o país dentro das suas opções, abrindo, assim, novas oportunidades de posicionamento.
Como sempre, aprender de experiências exitosas de outros destinos pode proporcionar lições valiosas. Um rápido olhar ao mapa turístico mundial revela um caso notável: Um país sem grandes cidades icónicas, sem sítios arquitectónicos de renome mundial, sem uma cultura amplamente reconhecida, nem uma maravilha universalmente famosa, mesmo assim, conseguiu posicionar-se como a capital mundial do ecoturismo. Este país é a Costa Rica.
Com quase 1.300 km de costa, Costa Rica podia ter apostado pelo turismo tradicional de sol e praia, um mercado conhecido, mas altamente saturado. Porém, uma análise de competitividade revelou que a sua vantagem estava na sua biodiversidade. O seu principal activo turístico estava escondido nos bosques: “as jóias com penas”. Com ajuda das aves, o turismo começou literalmente a “voar”. Estima-se que mais de 300.000 observadores de aves visitaram o país em 2025. As cifras são contundentes: A Costa Rica factura mais de 1.500 milhões de dólares anuais, apenas com o turismo de “birdwatching”.
Os visitantes pioneiros valorizaram a biodiversidade e assentaram as bases de uma indústria ecoturística que evoluiu desde hospitalidade simples para avituristas, até aos ecoalbergues cómodos e luxuosos, que hoje oferecem não apenas guias turísticos altamente capacitados, capazes de identificar aves, orquídeas, borboletas e muito mais. Aqui o “efeito chamada” funcionou claramente. Com base no mesmo, a Costa Rica conseguiu ampliar e diversificar a sua proposta turística, incorporando experiências como yoga, “spa” e massagens, gastronomia gourmet, asim como “surf” e praia. Tudo isso articulado sob um conceito integrador e coerente: O estilo de vida: “pura vida” que converte a visita numa experiência única, completa e diferenciada.
Tradicionalmente, a maioria dos observadores de aves provinha da América do Norte, Reino Unido e países nórdicos. No início da década de 2020, ocorreu um desastre global que obrigou a população mundial a “ficar em casa”, com mobilidade restringida aos arredores dos locais de residência. Muitas pessoas começaram a explorar o seu ambiente mais imediato, descobrindo as aves que os cercavam. O Covid 19 desapareceu, mas o “vírus” da observação de aves ficou, “contagiando” milhões de novos entusiastas em todo o mundo. Estima-se que, hoje, existam mais de 120 milhões de “birdwatchers”(observadores de aves), muitos deles com alto poder aquisitivo. A indústria óptica não tardou a reagir, desenvolvendo produtos cada vez mais sofisticados e onerosos para esse nicho. A oferta de roupas, bonés e merchandising especializado multiplicou-se. Mas o maior impacto verifica-se no sector turístico: empreendedores construiram alojamentos que oferecem experiências inolvidáveis de observação e fotografia de aves, em ambientes naturais de alta qualidade.
A Colômbia, após décadas de conflito armado, procurou recuperar e expandir o seu turismo.Consciente da sua extraordinária riqueza em avifauna, apostou em replicar o êxito de Costa Rica e integrou o aviturismo nos seus planos estratégicos. Envolveu as comunidades locais, desenhou rotas especializadas, formou guias ornitológicos e lançou campanhas de promoção dirigidas. Os resultados não tardaram em chegar. Hoje, a Colômbia recebe milhares de observadores de aves que viajam em busca do seu tesouro tropical.
O aviturismo em Angola
Um estudo recente da universidade de Califórnia em Santa Cruz (2025), EUA, destaca um paradoxo revelador: Apesar de contar com um “capital aviário” de classe mundial, a actividade de turismo ornitológico em Angola está qualificada como “desproporcionalmente baixa” Em relação à sua riqueza em espécies raras. Longe de ser uma desvantagem, esta situação representa hoje a maior oportunidade inexplorada do turismo angolano.
A lista de aves raras de Angola supera inclusive a da Costa Rica e inclui 15 espécies endémicas, que só existem no país, dentre elas a ave nacional: O turaco de crista vermelha.
A esta proposta poderia somar-se a avifauna singular de Cabinda e Malanje, com as majestosas Quedas de Calandula e o grande símbolo da fauna nacional, a Palanca Negra Gigante, enriquecendo ainda mais a experiência e ampliando a sua atractividade internacional.
A limitada disponibilidade de guias locais especializados, de operadores adaptados e de uma promoção focalizada e eficaz, limita o crescimento do aviturismo e reduz o seu potencial para gerar e usufruir dos seus benefícios directos e iduzidos para a economia nacional e para as comunidades locais.
A experiência de países como Costa Rica e Colômbia demonstra que consolidar o aviturismo pode ser uma porta de entrada estratégica para valorizar outros grandes atractivos, como as Quedas de Calandula, a Fenda da Tundavala, as praias desérticas do Namibe, a Welwitchia Mirabilis e outros activos turísticos de referência, integrando-os numa narrativa de destino sólida e atractiva
Será que a Torre Eiffel de Angola terá penas?
Vamos dar “asas” a Angola.