O recurso sistemático a “contabilidades criativas”, o uso indevido de sistemas de inteligência artificial que invocam bases legais e referências jurisprudenciais inexistentes, e uma gritante incapacidade ou, (mais inquietante), omissão deliberada, em detectar fraudes contabilísticas de crescente sofisticação: eis os sintomas de um único fenómeno global, que corrói, de forma paulatina, a credibilidade das sociedades de auditoria cognominadas como as Big Four.
Quis custodiet ipsos custodes? Perguntava Juvenal, há dois mil anos, sem imaginar que a resposta continuaria por dar. Conte-se, pois, com o distanciamento irónico que o tema reclama, o que os círculos financeiros já murmuram entre si “as instituições que criámos precisamente para nos protegerem da nossa própria desconfiança começaram, elas próprias, a merecer desconfiança”.
Primeiro acto: a auditora que nada viu
Comece-se pela Wirecard, porque toda o boa “celeuma” exige um cadáver na primeira cena. A processadora de pagamentos alemã ruiu em Junho de 2020, quando se apurou que EUR 1,9 mil milhões (Euros), alegadamente depositados em contas fiduciárias nas Filipinas, jamais tinham existido, a EY certificara as contas sem nunca confirmar o saldo directamente junto do depositário.
Segue-se a Carillion, caso já elevado a manual de negligência auditiva na common law britânica, a Financial Reporting Council concluiu, em Outubro de 2023, que a KPMG emitira pareceres sem reservas sobre demonstrações financeiras de uma empresa que já dependia de financiamento de curto prazo insustentável, e infligiu-lhe a sanção mais pesada da sua história conhecida, GBP 21 milhões (Libras esterlinas), reduzidos por cooperação de um montante inicial de GBP 30 milhões (Libras esterlinas).
Mas nenhum caso é hoje tão instrutivo como o da Evergrande. Onde as autoridades chinesas apuraram receitas empoladas em centenas de milhares de milhões de yuan, a PwC, sua auditora, tornou-se ré numa acção movida pelos liquidatários, que reclamam presentemente cerca de USD 8,4 mil milhões (Dólares) por negligência.
O desenvolvimento mais recente merece leitura atenta de qualquer estudioso de governação corporativa, em Agosto de 2026, o Tribunal de Primeira Instância de Hong Kong recusou-se a excluir do processo a PwC International (a entidade “mãe” da rede global), por considerar “inadequada e insatisfatória” a prova de que esta nada teria a ver com o trabalho das suas filiais locais. Dito de outro modo evidencia-se claramente que a marca planetária, já não poderá esconder-se atrás da fragmentação jurídica que ela própria de certo modo desenhou.
Segundo acto: do infortúnio a consequência coletiva
Não se conclua, apressadamente, que se trata de quatro maçãs isoladamente podres. Na Austrália, a ASIC confirmou, perante uma comissão parlamentar, estar a examinar 551 reclamações de eventual má conduta envolvendo as quatro grandes firmas. Quando a cifra atinge tal amplitude, deixa de pertencer à categoria do incidente e passa a integrar a categoria da patologia estrutural.
Terceiro acto: uso inapropriado da inteligência artificial
Em Julho de 2026, o Décimo Primeiro Circuito norte-americano censurou o advogado Anthony Sabatini por peças processuais “repletas de citações falsas e alucinadas”; numa reviravolta que teria feito as delícias de Molière, a tentativa de emenda substituiu os casos inventados por outros igualmente inexistentes.
Na Califórnia, um tribunal de recurso impôs multa de USD 10.000 a um advogado depois de apurar que 21 das 23 citações do seu recurso, geradas pelo ChatGPT, eram fabricação pura. E em Setembro de 2026 (matéria ainda morna), o Tribunal de Recursos do Distrito de Columbia expurgou uma peça apresentada em nome de uma subsidiária do Deutsche Bank, em processo de execução hipotecária, por conter quatro autoridades jurisprudenciais simplesmente inexistentes.
Mas o verdadeiro ponto culminante aquele que impõe silêncio a qualquer sala de reuniões, é este, a própria Big Four passou a alucinar sobre si mesma. Em 2026, a EY Canada retirou um relatório de cibersegurança depois de uma investigação independente ter identificado 16 das 27 referências como fabricadas ou inverificáveis10. Meses depois, coube à KPMG idêntico destino, um relatório sobre inteligência artificial agêntica no qual apenas 5 das 45 citações remetiam correctamente para fontes reais e instituições ali citadas como exemplo, entre elas a UBS e serviços do sistema de saúde britânico, vieram publicamente desmentir as afirmações que lhes eram atribuídas.
Por fim, é evidente que, rejeitar a inteligência artificial seria tão inútil como rejeitar a calculadora porque alguém pode nela introduzir uma operação errada. O que precisamos enquanto mercado financeiro angolano, à medida que o nosso sistema financeiro cresce e ganha sofisticação (mercados de capitais, seguradoras, organismos de investimento colectivo, exigências crescentes de compliance), é de uma disciplina simples e não negociável, protocolos obrigatórios de verificação de fonte primária em qualquer departamento jurídico ou financeiro que use IA, supervisão prudencial que inclua, explicitamente, o controlo interno sobre esse uso, e ordens profissionais dispostas a tratar a verificação como dever deontológico autónomo, e não como boa prática opcional.
Ademais, há contudo, uma distinção que a justiça intelectual exige e que não convém esquecer no calor da indignação. Precisamente por serem quem são (as quatro maiores redes de auditoria do mundo, responsáveis pela verificação de uma fatia esmagadora das grandes empresas cotadas do planeta, logo, os erros das Big Four ganham, inevitavelmente, uma visibilidade e uma ressonância que os mesmos erros, cometidos por uma firma de auditoria regional ou de nicho, jamais alcançariam. Um lapso na Deloitte faz manchete, um lapso equivalente numa pequena firma local passa, quase sempre, incólume.
Mas essa maior visibilidade não equivale, nem deve ser confundida, com maior frequência ou maior gravidade intrínseca do erro. E, sobretudo, não constitui razão bastante para uma desconsideração total das Big Four, como se a dimensão fosse, por si só, prova de culpa estrutural irremediável. Seria tão precipitado abandonar o modelo de auditoria que estas redes ainda sustentam, com toda a sua capacidade técnica, cobertura global e know-how acumulado, como seria negligente continuar a tratá-las como acima de escrutínio.
REFERÊNCIAS
- A. Persi Flacci et D. luni luvenalis Saturae. Ed. Wendell Vernon Clausen. 2ª ed. Ver. Oxford: Clarendo Press, 1992.
- Financial Times (investigação de Dan McCrum, 2019/2020) e cobertura da insolvência da Wirecard AG, Amtsgericht München, Jun. 2020.
- Financial Reporting Council (Reino Unido), Final Decision Notice — KPMG Audit Plc and the audits of Carillion plc, 12 Out. 2023; cf. Bloomberg Tax, “UK’s FRC Fines KPMG, Two Former Partners Over Carillion Audit”, 12 Out. 2023, news.bloombergtax.com/financial-accounting/uks-frc-fines-kpmg-two-former-partners-over-carillion-audit.
- Bloomberg, “Evergrande Liquidators Seek $8.4 Billion From PwC in Hong Kong Court”, 18 Mai. 2026, bloomberg.com/news/articles/2026-05-18/evergrande-liquidators-pursue-claims-against-pwc-in-hk-court.
- Evergrande (in liquidation) v PricewaterhouseCoopers International Ltd & Ors, Tribunal de Primeira Instância de Hong Kong (Deputy High Court Judge Patrick Fung Pak-tung), decisão de 26 Ago. 2026; cf. Bloomberg, “PwC International Can’t Exit Evergrande Case, HK Court Rules”, bloomberg.com/news/articles/2026-08-26/pwc-international-can-t-exit-evergrande-case-hk-court-rules.
- Reuters, apud Gulf Times, “Australian regulator reviewing 551 audit misconduct complaints at big four firms”, gulf-times.com/article/732666.
- Akerlund v. Atlas Air, Inc., 11th Cir., decisão de Jul. 2026 (Grant, J.); cf. Bloomberg Law, “Ex-Florida Congress Candidate Slammed by Court Over AI in Briefs”, 10 Jul. 2026, news.bloomberglaw.com/daily-labor-report/ex-florida-congress-candidate-slammed-by-court-over-ai-in-briefs
- Tribunal de Recurso da Califórnia, 2.º Distrito de Apelação, decisão publicada Set. 2025; cf. CalMatters, “California issues historic fine over lawyer’s ChatGPT fabrications”, 24 Set. 2025 calmatters.org/economy/technology/2025/09/chatgpt-lawyer-fine-ai-regulation/.
- Douglas v. Deutsche Bank National Trust Co., D.C. Court of Appeals, Order de 3 Set. 2026; cf. “D.C. Court Strikes AI-Cited Deutsche Bank Brief”, letsdatascience.com/news/dc-court-strikes-ai-cited-deutsche-bank-brief-c224b0ce
- GPTZero, investigação sobre o relatório da EY Canada Points of Attack: Uncovering Cyber Threats and Fraud in Loyalty Systems (EY Canada, 2025); cf. Computing, “EY cybersecurity report pulled after probe finds ‘AI hallucinations’”, computing.co.uk/news/2026/ai/ey-cybersecurity-report-withdrawn-ai-hallucinations.
- GPTZero, “Chasing the Hallucinations: KPMG’s AI-Powered Attempt at ‘Redefining Excellence’”, gptzero.me/news/investigations-kpmg/; cf. CityAM, “KPMG report on AI found riddled with AI hallucinations”, cityam.com/kpmg-report-on-ai-found-riddled-with-ai-hallucinations/.