Opinião

Nós, angolanos, sabemos decidir sobre o nosso dinheiro?

Wagner Medina Luís

Licenciado em Comunicação Aplicada

16 Setembro, 2026 - 09:56

16 Setembro, 2026 - 09:56

Wagner Medina Luís

Licenciado em Comunicação Aplicada

O sector financeiro angolano tem evoluído de forma significativa, com maior diversificação de produtos e mais iniciativas de inclusão financeira. Mas há um número que obriga a parar e pensar: o Inquérito de Literacia Financeira 2022, do INE em parceria com o BNA, apurou um Índice de Literacia Financeira de apenas 24,7%. Aumentar o acesso a contas, cartões ou crédito não basta. Ter acesso ao sistema financeiro não é o mesmo que saber utilizá-lo.

O que os números revelam

Em 2025, o Índice de Inclusão Financeira em Angola situou-se em 49,97%, segundo o BNA. O indicador tem crescido, mas a literacia financeira continua em atraso. Os dois indicadores não devem ser comparados de forma linear, mas lado a lado levantam uma questão importante: à medida que mais angolanos entram no sistema financeiro, será que a sua capacidade de o compreender está a evoluir ao mesmo ritmo? Angola precisa de evitar essa distância entre acesso e capacidade de decisão, acompanhando a expansão do sistema com a expansão do conhecimento necessário para o utilizar.

Começar pela escola

Um erro comum é deixar a aprendizagem financeira começar apenas quando a pessoa já recebe salário, altura em que os erros já custam dinheiro. A experiência portuguesa oferece aqui referências úteis, também pela proximidade linguística e cultural. Portugal lançou, em 2011, o Plano Nacional de Formação Financeira e desenvolveu depois um Referencial de Educação Financeira, da pré-escola ao secundário, com formação também para adultos.

Essa experiência mostra que a educação financeira deve ser encarada como um investimento de longo prazo. Angola pode retirar daí a importância de começar cedo, introduzindo progressivamente noções de dinheiro, poupança e orçamento, e avançando depois para juros, inflação e crédito. O objectivo não é formar investidores precoces, mas preparar adultos capazes de compreender um contrato de crédito ou perceber por que a inflação reduz o poder de compra.

E quem já saiu da escola?

Mesmo que Angola reforce hoje a educação financeira nas escolas, milhões de adultos já trabalham, poupam, pedem crédito ou gerem negócios. É aqui que ganha relevância a experiência brasileira, também próxima pela história, língua e cultura. A Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) do Brasil não se limitou às escolas: incluiu programas para a população adulta e para grupos com necessidades distintas.

A principal lição para Angola está nessa segmentação. Uma estratégia nacional não deve falar da mesma forma com todos. Quem recebe o primeiro salário enfrenta decisões diferentes de quem pretende contrair crédito, comprar casa ou preparar a reforma. Um cidadão pode ter conta e não compreender as comissões que paga, ou recorrer ao crédito sem perceber o custo dos juros.

Da poupança ao investimento

À medida que o mercado de capitais angolano se desenvolve, os cidadãos vão precisar de compreender não só contas e depósitos, mas também obrigações, fundos e acções. A experiência australiana é útil aqui: a sua estratégia de capacitação financeira parte do princípio de que as decisões adequadas dependem das circunstâncias de cada pessoa, e que informação credível, no momento certo, ajuda a melhorar a tomada de decisão

Angola não precisa de esperar que o mercado amadureça para aplicar este princípio. A educação deve acompanhar o crescimento do próprio mercado. Quanto maior o acesso ao investimento, maior deve ser a capacidade do cidadão para perguntar: qual é o risco? Qual o retorno esperado? Posso perder o capital investido? Um mercado de capitais saudável depende também da qualidade das decisões de quem nele investe.

Literacia para pequenos negócios

Grande parte da economia angolana passa por pequenos comerciantes e trabalhadores independentes. Para muitos deles, o primeiro passo da literacia financeira nem sequer passa pela bolsa ou por fundos de investimento. Passa, simplesmente, por saber separar o dinheiro do negócio do dinheiro pessoal. Um comerciante pode vender muito e ainda assim não ter lucro, ou recorrer a financiamento sem saber se o negócio gera rendimento suficiente para o pagar.

Uma estratégia angolana deveria incluir uma vertente dedicada aos pequenos negócios, centrada em conceitos aplicáveis no dia a dia, como receita, despesa, margem, lucro e fluxo de caixa. Para milhares de pequenos operadores, isto pode ter um impacto mais imediato do que matérias mais sofisticadas sobre mercados financeiros.

Literacia também é protecção

A educação financeira desempenha ainda outra função: proteger o cidadão contra fraudes. Singapura oferece aqui uma referência interessante, através do MoneySense, programa nacional que disponibiliza informação sobre decisões financeiras em diferentes momentos da vida, incluindo materiais de sensibilização para riscos e fraudes.

Esta dimensão torna-se ainda mais relevante à medida que o acesso a produtos financeiros cresce. Quanto menor a capacidade de avaliar risco e retorno, maior a vulnerabilidade a promessas de enriquecimento rápido. Uma pergunta simples pode evitar decisões caras: se o retorno prometido é muito superior ao normal, onde está o risco? Angola poderia reforçar a informação pública, simples e acessível, que ajude o cidadão a reconhecer sinais de fraude.

Um modelo para Angola

Angola não precisa de escolher entre Portugal, Brasil, Austrália ou Singapura. Pode retirar ensinamentos de cada uma dessas experiências: começar a educação financeira cedo, alcançar quem já saiu da escola, adaptar a formação às diferentes fases da vida e disponibilizar informação simples e próxima do cidadão. Mas copiar modelos estrangeiros não será suficiente. A informação precisa de chegar além de Luanda, do português escrito e das agências bancárias, através de escolas, rádio, televisão e redes sociais. Para muitos, a literacia financeira pode começar por algo simples, como construir um orçamento, distinguir uma necessidade de um desejo ou perceber o verdadeiro custo de uma dívida.

Medir resultados

Angola já deu um passo importante ao medir a literacia financeira da população. O desafio seguinte é tornar essa avaliação um exercício regular. Não basta contar campanhas ou materiais distribuídos, é preciso perceber se o comportamento das pessoas está de facto a mudar. Quantos angolanos conseguem calcular juros, comparar duas propostas de crédito ou distinguir poupar de investir?

Angola tem uma população maioritariamente jovem e um sistema financeiro em expansão. Nos próximos anos, mais cidadãos deverão entrar no sistema bancário, recorrer ao crédito e ter contacto com instrumentos de investimento. Esse crescimento representa uma oportunidade, mas também uma responsabilidade. Investir em bancos, em bolsa e em crédito sem investir, ao mesmo tempo, na capacidade dos cidadãos para os compreender é construir apenas metade da ponte.

A pergunta que Angola precisa de responder não é apenas quantos cidadãos têm acesso ao sistema financeiro. É também quantos estão verdadeiramente preparados para tomar boas decisões dentro dele.

Fontes: BNA e INE (Literacia Financeira 2022; ENIF 2025–2027); CNSF Portugal (Plano Nacional de Formação Financeira); ENEF Brasil; National Financial Capability Strategy, Austrália (2022); MoneySense, Singapura.

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