Opinião

Da medição do risco à alocação de capital: o que realmente cria valor na banca

Rahul Behal

Financial Risk Manager

Rogério Ngombo

Financial Modeling & Valuation Analyst

23 Junho, 2026 - 09:10

23 Junho, 2026 - 09:10

Rahul Behal

Financial Risk Manager

Os bancos de hoje medem o risco com uma precisão notável. Cada crédito concedido, cada carteira e cada contraparte são avaliados, modelados e submetidos a testes de esforço à luz de diversos enquadramentos regulatórios e contabilísticos. Contudo, apesar de todo esse poder analítico, persiste uma lacuna curiosa: muitas instituições continuam a alocar capital — decidindo onde crescer, onde praticar preços mais agressivos e onde reduzir a exposição — com base no volume, na quota de mercado ou na rentabilidade aparente, em vez de se orientarem pelos retornos ajustados ao risco que os próprios modelos já revelam.

Isto é mais do que uma simples falha técnica. Em muitos casos, representa a diferença entre bancos que criam valor de forma consistente ao longo do tempo e aqueles que perseguem crescimento em segmentos que, silenciosamente, estão a destruir valor. A verdadeira questão não é se os bancos conseguem medir o risco de forma adequada — a maioria já o faz. O desafio está em saber se essa informação é realmente utilizada para orientar as decisões que mais importam: onde investir capital e quais oportunidades priorizar.

Nos mercados emergentes, como Angola, esta reflexão torna-se ainda mais relevante. O desafio já não reside apenas na capacidade de medir o risco, mas sobretudo em garantir que essa informação seja incorporada de forma efetiva no processo de alocação de capital.

À primeira vista, os números oficiais do sector bancário angolano parecem encorajadores. Em 2024, o sector apresentou uma Rentabilidade dos Capitais Próprios (ROE) de 24,74% e uma Rentabilidade dos Activos (ROA) de 3,01%, enquanto o rácio de solvabilidade atingiu 20,87%, significativamente acima do mínimo regulamentar de 12%. No entanto, estes indicadores coexistem com uma taxa de crédito malparado (NPL) de 19,20%. Embora o rácio de cobertura do crédito em incumprimento, próximo de 119,6%, ajude a mitigar o risco, não elimina a fragilidade subjacente das carteiras de crédito dos bancos.

Ao mesmo tempo, a rentabilidade do sistema bancário continua fortemente dependente da dinâmica das taxas de juro, dos movimentos cambiais e da exposição a activos soberanos. Por outro lado, as instituições verdadeiramente comprometidas com a criação de valor não crescem simplesmente porque existe espaço para expansão. Crescem apenas quando os retornos ajustados ao risco superam claramente o custo do capital. Neste contexto, métricas como o RAROC, o ROIC e o EVA deixam de ser meros instrumentos de controlo interno para se tornarem elementos centrais da estratégia corporativa.

No final, a vantagem competitiva não pertencerá ao banco com o maior balanço, mas sim àquele que conseguir demonstrar que cada unidade monetária de capital alocada gera valor económico real, após remunerar adequadamente os riscos assumidos.

Por detrás destas métricas ajustadas ao risco existe uma base que raramente é visível fora das áreas de gestão de risco: um mapa detalhado, exposição por exposição, já presente nos sistemas internos dos bancos.

Ao abrigo da IFRS 9, cada exposição de crédito possui uma Probabilidade de Incumprimento (PD), uma Perda em Caso de Incumprimento (LGD) e uma Exposição no Momento do Incumprimento (EAD), classificadas de acordo com o grau de deterioração do risco de crédito desde a sua originação.

Da mesma forma, na abordagem IRB de Basileia, estes três parâmetros determinam os activos ponderados pelo risco e o capital regulamentar consumido por cada exposição.

Em suma, os bancos não sofrem de falta de dados. Já sabem, operação por operação, onde o capital está aplicado e qual a perda esperada que cada exposição deverá absorver. O que muitas vezes falta é a tradução desses indicadores — converter PD, LGD e EAD na linguagem do RAROC e do EVA, que é aquela que sustenta as decisões de preço, investimento e estratégia.

Sem essa transformação, a medição do risco permanece um exercício contabilístico e regulatório. Com ela, torna-se o alicerce da disciplina na alocação de capital.

Em última análise, a medição do risco e a alocação de capital não são etapas independentes ou sequenciais; são partes integrantes da mesma disciplina.

Para os bancos — em Angola, na Índia ou em qualquer outro mercado — a rentabilidade sustentável dependerá menos da precisão com que o risco é medido e mais da capacidade de transformar essa precisão em decisões concretas de alocação de capital.

From Risk Measurement to Capital Allocation: What Really Creates Value in Banking

Banks today measure risk with remarkable precision. Every loan, every portfolio, every counterparty is scored, modeled, and stress-tested against an array of regulatory and accounting frameworks. Yet for all this analytical firepower, a curious gap persists: many institutions still allocate capital — deciding where to grow, where to price aggressively, where to pull back — based on volume, market share, or headline yield, rather than on the risk-adjusted returns those same risk models already reveal.

This is more than technical oversight. It is, in many cases, the difference between banks that compound value steadily over time and those that chase growth into segments quietly eroding it. The real question is not whether banks measure risk well — most do. It is whether that measurement is allowed to shape the decisions that matter most: where capital goes, and why.

For emerging markets such as Angola, this question becomes even more relevant, as the real challenge no longer lies in the ability to measure risk, but rather in ensuring that such information effectively influences capital allocation decisions.

At first glance, the official figures of the Angolan banking sector appear reassuring. In 2024, the sector reported a Return on Equity (ROE) of 24.74% and a Return on Assets (ROA) of 3.01%, while the sector’s solvency ratio stood at 20.87%, significantly above the regulatory minimum requirement of 12%. However, these indicators coexist with a non-performing loan (NPL) ratio of 19.20%. Although the NPL coverage ratio, at approximately 119.6%, helps mitigate risk, it does not eliminate the underlying fragility of banks’ loan portfolios.

At the same time, the profitability of the banking system remains heavily dependent on interest rate dynamics, exchange rate movements, and exposure to sovereign assets.

Meanwhile, financial institutions genuinely committed to value creation do not grow simply because there is room for expansion; they grow only when risk-adjusted returns clearly exceed the cost of capital. In this context, metrics such as RAROC, ROIC, and EVA cease to be mere internal control tools and become central to corporate strategy. Ultimately, competitive advantage will not belong to the institution with the largest balance sheet, but rather to the one capable of demonstrating that every unit of capital allocated generates real economic value after adequately compensating for the risks undertaken.

From Compliance to Insight Behind these risk-adjusted metrics lies a foundation rarely visible from outside the risk function: a granular, exposure-by-exposure map already sitting inside the bank’s own systems. Under IFRS 9, every credit exposure carries a Probability of Default (PD), Loss Given Default (LGD), and Exposure at Default (EAD), staged according to how materially credit risk has deteriorated since origination. Under Basel’s IRB approach, the same three parameters determine risk-weighted assets and the regulatory capital each exposure consumes. Banks, in short, are not short of data; they already know, exposure by exposure, where capital is deployed and how much expected loss it is meant to absorb. What is often missing is translation — converting PD, LGD, and EAD into the RAROC and EVA language that pricing and strategic decisions actually speak. Without that step, risk measurement remains an accounting exercise. With it, it becomes the foundation of capital discipline.

Ultimately, risk measurement and capital allocation are not sequential steps but parts of the same discipline. For banks — in Angola, India, and any other market — sustainable profitability will depend less on how precisely risk is measured and more on whether that precision is effectively translated into capital allocation decisions. That is where durable value creation truly begins.

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