Opinião

Seguros: os números do 1.º trimestre de 2026

Newton Agostinho

Advogado e Gestor de Sinistros

10 Junho, 2026 - 09:55

10 Junho, 2026 - 09:55

Newton Agostinho

Advogado e Gestor de Sinistros

Os indicadores do 1.º trimestre de 2026 permitem uma primeira leitura sobre a evolução do sector segurador angolano no início do ano. Embora o período seja ainda curto para conclusões definitivas, os dados mostram crescimento da produção, aumento dos custos com sinistros, maior volume de pagamentos, subida do número de apólices e recuperação expressiva da actividade de mediação.

No período em análise, os prémios brutos emitidos atingiram cerca de 179,3 mil milhões de kwanzas, contra 146,2 mil milhões de kwanzas em igual período de 2025, o que representa um crescimento de 22,67%. O mercado manteve, assim, uma trajectória positiva em termos de produção. Contudo, a estrutura da carteira continua fortemente concentrada no ramo Não Vida, que representa 92,56% dos prémios emitidos, enquanto o ramo Vida mantém um peso reduzido, de 7,44%.

Esta composição confirma que o mercado segurador angolano continua assente, sobretudo, em produtos de protecção patrimonial, empresarial, automóvel, saúde, acidentes e grandes riscos. O ramo Vida regista sinais de crescimento, especialmente em número de apólices, mas permanece com expressão económica limitada quando comparado com o conjunto dos ramos Não Vida.

Entre os ramos com maior peso na produção, destacam-se Doença, Petroquímica, Automóvel e Acidentes de Trabalho. O ramo Doença permanece como o principal motor do mercado, representando mais de um terço dos prémios emitidos. Este peso reflecte a crescente importância do seguro de saúde para empresas, trabalhadores e famílias, mas também reforça a necessidade de acompanhamento técnico, nomeadamente ao nível da subscrição, gestão de prestadores, controlo de utilização e auditoria clínica.

A análise dos custos com sinistros introduz um elemento de maior cautela. No 1.º trimestre de 2026, estes custos atingiram aproximadamente 62,4 mil milhões de kwanzas, contra cerca de 45 mil milhões de kwanzas no período homólogo de 2025. A variação foi de 38,60%, superior ao crescimento dos prémios. Este diferencial mostra que a expansão da produção foi acompanhada por uma pressão mais intensa sobre os encargos técnicos das seguradoras.

Parte deste aumento pode ser explicada por factores económicos objectivos, como o encarecimento da reparação automóvel, o custo das peças e da mão-de-obra oficinal, a inflação médica e a maior severidade de determinados sinistros. Ainda assim, permanece uma questão relevante para o sector: além do aumento normal dos preços, em que medida estes números poderão também estar a ser influenciados pela fraude crescente nos seguros?

A taxa de sinistralidade global subiu de 30,79% no 1.º trimestre de 2025 para 34,80% no 1.º trimestre de 2026. No ramo Não Vida, passou para 37,07%. Embora estes níveis não indiquem, por si só, uma situação de ruptura, evidenciam maior pressão técnica. Os ramos Doença e Automóvel continuam a exigir particular atenção, com taxas de sinistralidade de 54,39% e 50,69%, respectivamente.

No ramo Doença, a pressão decorre da conjugação entre elevada procura, inflação médica, utilização frequente das coberturas e complexidade da gestão das redes de prestadores. No ramo Automóvel, os principais factores de pressão continuam associados ao custo das reparações, disponibilidade e preço das peças, qualidade das peritagens, prazos de regularização, gestão de oficinas e discussão sobre responsabilidade nos sinistros.

Os montantes pagos também registaram crescimento expressivo. No 1.º trimestre de 2026, os pagamentos atingiram cerca de 69,9 mil milhões de kwanzas, contra 33,9 mil milhões de kwanzas em igual período de 2025, representando um aumento superior a 100%. Este indicador pode reflectir maior volume de sinistros regularizados, liquidação de processos pendentes, maior severidade dos eventos ou impacto de sinistros de grande dimensão, designadamente em ramos Multirrisco e petroquímicos.

O número de apólices emitidas passou de 316.425 no 1.º trimestre de 2025 para 373.267 no 1.º trimestre de 2026, correspondendo a um crescimento de 17,96%. O dado sugere maior dinamismo comercial e maior capilaridade do seguro. Contudo, o aumento do número de apólices deve ser lido em conjunto com a qualidade da cobertura, a suficiência dos capitais seguros, a adequação do produto às necessidades do tomador e a capacidade de resposta no momento do sinistro.

A mediação apresentou uma evolução particularmente relevante. Os prémios de seguro com intervenção da mediação atingiram 35,2 mil milhões de kwanzas, contra 12,8 mil milhões de kwanzas no período homólogo de 2025, o que representa um crescimento de 174%. A mediação passou a representar 19,90% dos prémios brutos emitidos do sector, recuperando significativamente face aos 8,79% registados no 1.º trimestre de 2025.

Nos prémios mediados, o ramo Doença liderou com 14,2 mil milhões de kwanzas, equivalentes a 40% do total. Seguiram-se Acidentes, com 16%, Automóveis e Diversos, ambos com cerca de 12%, e depois Incêndio e Elementos da Natureza e Vida, ambos com 7%. Estes números indicam forte presença da mediação na colocação de seguros de saúde, em especial em carteiras colectivas e empresariais.

As comissões de mediação também cresceram de forma acentuada, passando de 1,2 mil milhões de kwanzas para 3,8 mil milhões de kwanzas, uma subida de 218,43%. Neste indicador, o maior peso pertenceu ao ramo Diversos, com 25%, seguido de Acidentes, com 23%, Automóveis, com 19%, e Doença, com 13%. Ou seja, embora Doença lidere em prémios mediados, não lidera em comissões, o que pode reflectir diferenças nas estruturas remuneratórias entre ramos.

O número de apólices mediadas passou de 3.601 para 7.620, representando um crescimento de 112%. A mediação correspondeu a 11,30% do total de apólices emitidas pelo sector, contra 0,95% no período homólogo. Neste indicador, o ramo Automóvel teve peso dominante, com 4.357 apólices mediadas, equivalentes a 57% do total. A diferença entre prémios e apólices é relevante: Doença lidera em valor, enquanto que o Automóvel lidera em quantidade.

A leitura dos dados da mediação deve, contudo, ser feita com alguma cautela, uma vez que a informação resulta de 37 das 75 entidades mediadoras certificadas em operação, com dados agregados e sem detalhe individual por mediador. Ainda assim, a tendência é clara: a mediação cresceu em prémios, comissões e número de apólices, reforçando a sua importância na distribuição de seguros e na ligação entre seguradoras e consumidores.

Em síntese, o 1.º trimestre de 2026 mostra um sector segurador em crescimento, mas também sujeito a maior pressão técnica. Os prémios aumentaram, os pagamentos cresceram, o número de apólices subiu e a mediação ganhou peso. Porém, os custos com sinistros cresceram acima dos prémios e alguns ramos, como Doença e Automóvel, continuam a exigir acompanhamento mais rigoroso.

A evolução do mercado em 2026 dependerá, por isso, não apenas da capacidade de aumentar a produção, mas também da qualidade da subscrição, da gestão dos sinistros, do controlo dos custos, da profissionalização da mediação e da capacidade de transformar crescimento estatístico em maior confiança no sector segurador.

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