Durante décadas, o discurso económico angolano tem girado em torno de três palavras: petróleo, diamantes e imobiliário. Estes sectores moldaram a economia nacional, orientaram políticas públicas, definiram grande parte das prioridades de investimento e moldaram comportamentos. No entanto, existe um recurso estratégico que raramente surge nas discussões sobre o futuro económico do país: a arte e a economia criativa.
Esta ausência é surpreendente. Angola possui uma das identidades culturais mais fortes e reconhecíveis do continente africano. A sua música, dança, moda e artes visuais influenciam culturas muito para além das suas fronteiras. Ainda assim, o país continua a tratar a arte sobretudo como expressão cultural – e raramente como um sector económico com potencial estratégico.
Num momento em que Angola procura diversificar a sua economia para além dos recursos naturais, talvez seja tempo de colocar uma nova pergunta no centro do debate: “poderá a arte tornar-se uma das próximas economias emergentes do país?”.
A nível internacional, as indústrias culturais e criativas tornaram-se “um dos sectores mais dinâmicos do século XXI. Segundo a UNESCO, este sector gera mais de 2 biliões de dólares por ano e emprega cerca de 30 milhões de pessoas em todo o mundo”. A economia criativa inclui áreas como música, cinema, design, moda, arquitetura, artes visuais e património cultural.
Mais importante ainda: trata-se de uma economia baseada em talento, conhecimento e criatividade – e não em recursos naturais finitos.
Para muitos países em desenvolvimento, esta realidade representa uma oportunidade estratégica. Como sublinham vários economistas culturais africanos: “as indústrias criativas podem desempenhar um papel crucial na diversificação económica, na criação de emprego jovem e na construção de novas formas de influência cultural global”.
A Nigéria construiu uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo com o fenómeno Nollywood. O Senegal tornou-se um centro artístico continental graças à Bienal de Dakar. Lagos transformou-se num dos mercados de arte contemporânea mais dinâmicos do continente. Angola, apesar da sua riqueza cultural, ainda não explorou plenamente esse caminho.
Angola já possui artistas reconhecidos internacionalmente. As suas obras circulam em galerias, museus e bienais de todo o mundo. Entre os nomes mais influentes destaca-se António Ole, cuja obra atravessa mais de cinco décadas e explora temas ligados à memória urbana, à identidade e à história angolana. Kiluanji Kia Henda tornou-se uma figura central da arte conceptual africana contemporânea, com trabalhos apresentados em instituições internacionais de prestígio. Edson Chagas ganhou projeção global após receber o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2013. Francisco Vidal dos Santos, com uma prática académica e multidisciplinar que atravessa arte visual, instalação e performance, expõe regularmente em museus e instituições europeias e africanas. Estes artistas demonstram que Angola já tem capital cultural reconhecido internacionalmente. O que falta é um ecossistema económico capaz de sustentar esse talento dentro do próprio país.
Apesar da vitalidade criativa, Angola enfrenta várias lacunas estruturais que limitam o desenvolvimento de um verdadeiro mercado de arte. Em primeiro lugar, o país ainda não possui um mercado artístico plenamente estruturado. Existem várias e boas galerias profissionais, assim como a ´Luanda Feira de Arte´ terá a sua 3ª edição em Junho. Mas faltam livros publicados, casas de leilões e redes de colecionadores, todos elementos fundamentais para qualquer ecossistema cultural. Em segundo lugar, faltam incentivos fiscais para colecionadores e investidores culturais. Em muitas economias desenvolvidas, a aquisição de obras de arte ou o apoio a instituições culturais pode beneficiar de deduções fiscais, incentivando o investimento privado. Outra lacuna importante é a ausência de orçamentos regulares de museus ou instituições públicas – o que dificulta a construção de coleções nacionais representativas. Também não existem, de forma significativa, fundos de investimento em arte ou estruturas financeiras dedicadas ao sector cultural. Finalmente, o envolvimento do sector privado e corporativo na criação de coleções ou no apoio à produção artística (sem ser através da responsabilidade social) permanece ainda limitado.
Sem estas estruturas, os artistas angolanos acabam frequentemente por depender de galerias e mercados internacionais para alcançar reconhecimento e sustentabilidade económica.
Pensar a arte como economia pode parecer, à primeira vista, um conceito distante da realidade angolana. No entanto, exemplos pan-africanos demonstram que a cultura pode tornar-se um poderoso motor de desenvolvimento. Cidades como Cidade do Cabo na África do Sul, e Marrakesh em Marrocos, transformaram-se economicamente através de investimentos em cultura, colecções e museus. Dakar consolidou-se como capital artística africana graças à sua bienal. Lagos tornou-se um centro de coleccionismo e mercado artístico.
A economia criativa poderia contribuir para diversificação económica, reduzindo a dependência de sectores extractivos. Poderia também gerar emprego para uma população jovem e urbana, especialmente em áreas como design, curadoria, produção cultural, gestão de galerias e comunicação cultural.
Além disso, o investimento na cultura reforça o posicionamento internacional de um país. A influência cultural – frequentemente chamada de soft power – tornou-se um elemento central na diplomacia contemporânea.
Se Angola decidir investir seriamente na economia criativa, Luanda tem potencial para tornar-se um centro artístico regional. A cidade possui uma energia cultural única, uma juventude criativa e uma identidade estética marcante. Com políticas adequadas, poderia desenvolver ainda mais espaços expositivos, residências artísticas e festivais culturais.
Para isso, algumas medidas estratégicas poderiam ser consideradas:
- Incentivos fiscais para colecionadores e mecenas culturais;
- Fundos públicos e privados de aquisição para instituições e museus;
- Estímulos à criação de colecções privadas e corporativas;
- Apoio institucional a galerias e espaços independentes, e residências artísticas; e,
- Integração da economia criativa nas estratégias nacionais de diversificação económica.
Estas medidas não beneficiariam apenas artistas. Criariam um ecossistema que inclui curadores, gestores culturais, técnicos de exposição, restauradores, designers e investigadores. Ou seja, uma nova cadeia económica baseada na criatividade.
Durante décadas, Angola construiu a sua economia a partir de recursos naturais extraídos do solo. Mas as economias do futuro dependerão cada vez mais de recursos intangíveis: identidade, conhecimento, inovação e cultura. O petróleo esgota-se. As minas eventualmente fecham. A criatividade humana, pelo contrário, renova-se continuamente.
Angola já possui o ingrediente essencial: uma cultura extraordinariamente rica e artistas capazes de dialogar com o mundo. O desafio agora não é produzir arte. É reconhecer que a arte pode ser também uma economia – e talvez uma das mais promissoras para o futuro de Angola.