Desde meados de 2024, começámos a assistir a uma mudança de estratégia das Sociedades Gestoras de Fundos de Investimento que actuam no Mercado de Valores Mobiliários nacional, que foi o foco no lançamento de fundos de investimento abertos que, ao invés dos fundos fechados, oferecem regras mais flexíveis, permitindo a subscrição e o resgate das unidades de participação durante a vigência do fundo.
A escolha entre um fundo aberto e um fundo fechado depende principalmente do perfil do investidor. Apesar de apresentar uma maior flexibilidade e liquidez para os investidores, os fundos de investimento abertos trazem outros desafios às equipas de gestão, um deles é a gestão de liquidez do Fundo.
Dentro dos estudos de rendimento fixo, vulgarmente designados de “obrigações”, como destaca Fernando Rieche, o Asset Liability Management (ALM), ou gestão de activos e de passivos, foca-se na consolidação de resultados em investimentos destinados ao atendimento de compromissos distribuídos ao longo do tempo. Essa técnica financeira é destinada à gestão do risco de possíveis desfasamentos entre os fluxos de caixa de entrada e de saída e a estrutura de taxas vinculadas aos activos e aos passivos.
O ALM fundamenta-se na influência de alguns factores, taís como: taxa interna de retorno contratada na aquisição dos investimentos, o comportamento das taxas de juro do mercado e o prazo em que estes instrumentos permanecem no portfólio. Estes aspectos são analisados por meio de modelos como a Duration e a Convexity, virados para a verificação de riscos como deficiência de liquidez, imunização dos investimentos e efeitos de variações de taxas de juro sobre as aplicações de rendimento fixo.
Se por um lado, a política de investimentos de fundos abertos que investem em instrumentos de rendimento fixo compreende objectivos estratégicos de longo prazo, com os quais é definido uma alocação estratégica. Por outro, devem ser definidos objectivos de curto prazo, ou seja, o estabelecimento claro de disponibilidades que constituirão uma margem percentual de manobra, dando espaço a possíveis ajustes na alocação táctica do fundo, bem como solicitações de resgates que podem surgir a qualquer momento.
Ainda, como indica Fabozzi (2004), o foco consiste em determinar estratégias de financiamento de passivos pela selecção de activos, de modo que os fluxos de caixa desses investimentos sejam iguais ou superiores às responsabilidades, trazendo consigo a constituição de uma posição de solvência na relação entre as disponibilidades de um investidor, representadas pelos investimentos de longo prazo, e os seus compromissos. Para constatar tal situação, a análise de desempenho dos fundos envolve uma avaliação do retorno obtido pelos investimentos em relação à necessidade de capitalização decorrente das necessidades de liquidação das aplicações ao longo do tempo.
Outro desafio nos fundos abertos é a metodologia de valorização do portfólio, ou seja, a possibilidade de utilização de diferentes técnicas de avaliação de investimentos e a divergência, entre essas distintas metodologias podem contribuir para a gestão dos instrumentos de rendimento fixo.
A técnica padrão é a metodologia mark-to-market, que tem como base sua liquidação imediata em mercado, isto é, mensura-se o valor de um instrumento conforme o preço verificado nas praças onde ele é negociado.
A valorização a preços de mercado introduz uma volatilidade contabilística e, no curto prazo, algum “ruído” no valor do fundo, porque o mesmo passa a oscilar diariamente com as cotações mesmo que o gestor não realize operações de compra e venda.
Essa mesma metodologia tem impacto imediato na performance e no risco reportado: as rentabilidades mensais e anuais passam a reagir directamente a variações de taxas de juro e spreads de crédito e as métricas de risco tendem a aumentar em fases turbulentas. Isto pode influenciar decisões de gestão porque o risco “medido” e a performance “observada” ajustam-se em tempo real ao ambiente de mercado.
Por fim, no tema de subscrições e resgates, a valorização a preços de mercado tende a promover maior equidade entre participantes, porque quem entra ou sai, o faz a um preço mais alinhado com o valor económico actual do portfólio, reduzindo transferências implícitas de valor entre investidores.
Os desafios apresentados trazem uma inovação e obrigam as equipas de gestão a adaptarem-se a essa nova realidade da nossa indústria, bem como forçam as sociedades gestoras a investir na formação das suas equipas de modo a estarem preparadas para este paradigma actual, e para o que o futuro nos reserva.