Em 2006, quando fez da Grã-Bretanha sua casa, Horta Osório era praticamente desconhecido, enviado pelo Banco Santander da Espanha para administrar sua nova filial britânica, o extinto Abbey National, que, em 2010, se tornou em Santander UK.
Nos anos seguintes, o banqueiro português tornou-se um pilar do establishment britânico, como poucos banqueiros estrangeiros tinham conseguido: foi escolhido por George Osborne, então ministro das Finanças do Governo de David Cameron, para retirar o Lloyds Bank, parcialmente nacionalizado, de uma eminente falência.
Mais tarde, devido aos bons ofícios prestados à estabildade do sistema financeiro, não apenas foi agraciado com a nacionalidade britânica, como também foi nomeado para a Corte do Banco da Inglaterra.
Horta-Osório chegou ao Lloyds em Março de 2010, quando ainda tentava recuperar-se do trauma da crise de crédito, na sequência de um acordo mal aconselhado: a compra do rival Halifax Bank of Scotland (HBOS), que deixou o banco financeiramente vulnerável e que precisou de ser resgatado pelo Governo.
Antes de assumir a presidência do LIoyds, a convite do Estado inglês, foi avisado que nenhuma libra seria novamente canalizado para resgatar o banco, como o próprio chegou a revelar.
“Havia um problema financeiro muito sério, ao mesmo tempo que tinha um nível de capital tão baixo”, afirmou o executivo.
Ao fim de 10 anos, Horta-Osório mudou a sorte da entidade bancária britânica, resgatando-o da falência com sucesso e colocando-o em uma base sustentável. O anúncio da sua retirada foi feito a 7 de Junho de 2020. António Horta Osório anunciava, com um ano de antecedência, a sua saída do cargo de Chief Executive Officer, concrerizando-se em Junho de 2021.
“É com um misto de emoções que anuncio a minha intenção de deixar o Lloyds Banking Group em Junho do próximo ano”, disse António Horta Osório, tendo-se justificado com uma célebre frase:
“As pessoas não se podem perpectuar nos cargos, para o benefício das instituições e dos próprios”.
Em Abril de 2021, António Horta Osório deixa o banco britânico. Mas, antes da saída, em 2020, o seu futuro já havia sido desenhado: iria suceder a Urs Rohner como presidente do Credit Suisse, em mais uma missão de salvamento. Tornara-se, assim, no primeiro presidente do Credit Suisse sem nacionalidade suíça.
Nascido a 28 de Janeiro de 1964, a carreira do gestor português começa no Citibank, então com 23 anos, passando pelo gigante Goldman Sachs, e pela gestão do Banco Santander de Negócios Portugal e do Santander Brasil. Licenciado em Gestão de Empresas pela Católica Portuguesa e, em 1991, concluiu o MBA no Insead, onde foi vencedor do Prémio Henry Ford II, atribuído ao melhor aluno.
O encontro na conferência da INSEAD Alumni, no Palácio Pestana

Osvaldo Lemos Macaia é um ex-aluno do INSEAD -Portugal (Instituto Europeu de Administração de Empresas), a mesma escola de negócios na qual Horta Osório fez o seu MBA em Administração e Gestão de Empresas. Por ironia do destino, os ex-colegas de escola, formados em períodos distintos, foram confrontados com a mesma missão: o salvamento de um banco.
O gestor português dispensa quaisquer comentários. É, aliás, tido como um “deus” da banca entre os falantes da língua portuguesa. Ou, pelo menos, é o executivo mais distinto da sua geração e continua a ser a maior referência do sector.
Em Janeiro deste ano, num dos hotéis da capital lisboeta, a Associação dos Antigos Alunos do INSEAD promoveu uma conferência-jantar para falar sobre liderança, resiliência e propósito. O orador principal era nada mais nada menos do que António Horta Osório. Na plateia restrita, com apenas 80 participantes escolhidos a dedo, saltava à vista o nome do único angolano: Macaia.
Muitos teriam 1001 motivos para ouvir o Sir António Horta Osório, de 62 anos, num evento exclusivo daquela magnitude. Porém, no caso do gestor angolano, de 42 anos, que, desde 2024, lidera um banco que se encontra sob apertado escrutínio do regulador bancário, havia um significado mais do que profissional.
Capitalizar e restruturar uma entidade bancária da dimensão do Banco Sol, focado em operações de retalho e microfinanças, aliado à complexidade política dos seus accionistas, será necessário muito mais do que capacidade de liderança, resiliência e propósito.
A confiança dos accionistas será, in ultima ratio, o “combustível” essencial para que o banco escape à morte. Para salvar o LIoyds, Osório teve total confiança do governo de David Cameron. No caso do Banco Sol, não haverá varinha mágica: sem confiança dos accionistas, nem Horta Osório conseguiria tirá-lo de uma eminente hecatombe.
Nota positiva para os números referentes ao terceiro trimestre, que indicam um banco em crescente recuperação. Os dados actuais, ainda não revisados pelo Auditor Externo (EY), revelam que o banco saiu de um prejuízo de 233,16 mil dólares para um lucro líquido de 18,28 milhões de dólares. Trata-se, na verdade, do maior lucro alcançado num terceiro trimestre desde a fundação do banco há 25 anos.
Não existem, por enquanto, informações sobre como ocorreu esta recuperação, nomeadamente qual teria sido, por exemplo, o contributo da recuperação de crédito, o despedimento de colaboradores, encerramentos de agências, assim como a alienação de activos e se os accionistas já teriam feito aportes de capital.