Durante o painel de debate moderado por José Matoso, administrador executivo da Mundial Seguros, o presidente da Comissão Executiva (PCE) da BFA Capital Markets, Odair Costa, afirmou que o mercado está numa fase ascendente, embora seja necessário ultrapassar os desafios para poder capitalizar as oportunidades.
“Eu, se tivesse que eleger um desafio, são múltiplos, mas um desafio tem que ver com o nível de literacia financeira de todo o mercado, começando nos investidores, nos emitentes, nos players, e também no restante ecossistema”, disse o PCE da BFA Capital Markets, acrescentando que é preciso apostar, fortemente, em programas que façam aumentar o nível de literacia financeira geral da nossa sociedade para que, no futuro, possamos ter investidores a volta dos 6 milhões.
Por sua vez, o presidente do Conselho de Administração do IGAPE, Álvaro Fernão, considera que o próximo desafio será, quando se esgotar as grandes empresas estratégicas e que têm mais próximos os requisitos concluídos para os IPOs, ver como se vai trazer às outras empresas, quer em obrigações, eventualmente em IPOs.
O partner da E&Y, Pedro Silva, reforçou que a literacia seja um desafio, no entanto, considera que exista algo em montante que tem que olhar, porque antes de haver investidores que olhem e saibam ler as contas, que é uma peça fundamental na tomada de decisão, temos de ter a qualidade do relato financeiro que, provavelmente, algumas das empresas em Angola ainda não têm esse nível de maturidade.
“Há um desafio claramente relevante e algum desfasamento temporal da entrada em bolsa de algumas empresas, que podem estar relacionadas com a necessidade de melhoria da qualidade do relato financeiro”, reforçou Pedro Silva.
Walter Pacheco: “Por mais literacia que eu tenha, eu preciso de dinheiro para investir”
O presidente do Conselho de Administração da Kassai- SGOIC, Walter Pacheco, aponta para a cultura de não pagamento das obrigações a tempo como o grande entrave para o crescimento e desenvolvimento do mercado de capitais.
“Por mais literacia que eu tenha, eu preciso de dinheiro para investir. E se não tiver recursos financeiros disponíveis a tempo e hora no mercado, não haverá procura. E como há, em Angola, a cultura de não pagamento das operações financeiras a tempo e horas nós gerimos os saldos como se fossem fluxos”, alertou o número um da Kassai.
Pacheco exemplificou, ainda, que, se tiver 1 na conta e 10 por receber, não pode fazer o cálculo de investimento com base no valor que se tem a receber, pois não há certeza se se vai receber.
Considerando ser um desafio do sector financeiro como um todo, acrescentou que, mesmo na banca, existe uma dificuldade muito grande de alongamento e disponibilização de mais crédito porque existe uma cultura de não pagamento.
Augusto Baptista: “Vejo soluções no mercado, como as REPOs”
Esgotadas as intervenções sobre os principais desafios do mercado de capitais, José Matoso questionou de que forma os Organismos de Investimento Colectivo (OIC) podem ajudar a elevar os níveis de liquidez no mercado, pelo que Augusto Baptista, Chief Executive Officer (CEO) da Ohuasi Investment, respondeu:
“Vejo soluções no mercado, como as REPOs, é um instrumento que ajudará a profundidade do mercado. Outra solução são os empréstimos de carteira, que foi referido pelo Super intendente da B3; outra via é ter um mecanismo de atracção de investimento estrangeiro, ou seja, já há muita liquidez no mundo, com diferentes níveis de custo”, enfatizou.
Baptista considerou, ainda, que há uma condição que torna Angola naturalmente atractiva: o facto de ser um mercado de fronteira, tornando-a destinos para investidores que têm apetite e a vontade de investir em mercados de fronteira que são naturalmente competitivos, pois esses mercados tendem a dar rentabilidades mais alta.
“Quando conheces os riscos consegues geri-los, consegues naturalmente gerar rentabilidades mais altas quer a nível de dívida quer a nível de capital e, às vezes, os desafios desses investidores é que não conhecem o risco e não sabem gerir o nosso risco”, disse o CEO da Ohausi.
E acrescentou: “Para os investidores que estão mais habituados a riscos de mercados desenvolvidos ou de mercados emergentes para nos tornarmos mais atrativos temos de tornar os fluxos de entrada e de saída mais fluídos, com menos atrito”.
Adilson Gaspar: “Há um outro desafio estrutural, que é o tema da liquidez”
O administrador executivo da Bolsa de Dívidas e Valores de Angola (BODIVA), Adilson Gaspar, garantiu que o atraso da concretização da função do segmento das Pequenas e Médias Empresas (PMEs) nos mercados de capitais e, particularmente, nos mercados BODIVA, não é regulatório nem tecnológico.
“AS PMEs enfrentam problemas específicos. Se, no lado da oferta, temos problemas de histórico financeiro, governance, opacidade informacional (…), do lado do investidor temos o problema do risco, que ele encontra por falta de informação, o risco de não conseguir monitorar bem essa empresa”, destacou o executivo da Bolsa de Valores.
No que toca à criação de um índice bolsista, à semelhança do que ocorre em outros mercados bolsistas, Adilson Gaspar explicou que um índice tem duas finalidades: uma estatística, onde se acompanha o nível geral das empresas cotadas em bolsa e as mesmas podem se comparar em relação ao índice; se estão acima ou mais abaixo do índice. Mas também têm uma finalidade de informar o comportamento económico das empresas e muitas das vezes se compara o índice com a evolução da própria economia.
Acrescentou que o mercado de capitais angolano tem uma diversidade reduzida de sectores e isso não permite aferir ou retirar do índice informação sobre como é que anda o sector, havendo necessidade que mais empresas venham para o mercado. Mas há um outro desafio estrutural, que é o tema da liquidez: temos baixo free float das empresas, baixa negociação em certas acções, pelo que movimentos no índice poderão levar com que não haja uma aferição do comportamento das empresas no índice…
“O índice que está a ser pensado é um índice de acompanhamento de preços geral do que um índice que seja de facto representativo do comportamento financeiro e económico das empresas. Estamos a pensar numa metodologia de surgimento de um índice ainda no final desse ano”, concluiu.