Opinião

Compreender a inflação em Angola: uma década de altos e baixos

Ana Claudia F. Manuel

20 Julho, 2026 - 23:45

20 Julho, 2026 - 23:45

Ana Claudia F. Manuel

Nos últimos dez anos, Angola viveu uma verdadeira montanha-russa económica. Se já reparou que o seu kwanza compra menos no mercado do que costumava ou, mais recentemente, que os preços parecem estar mais estáveis, não está enganado. Eis o que realmente tem acontecido, e o porquê:

Uma década difícil

A história da inflação em Angola nos últimos dez anos está intimamente ligada a um factor: o petróleo. Sendo o segundo maior produtor de petróleo de África, a economia angolana sobe e desce ao ritmo dos preços globais do crude. Quando os preços do petróleo caíram por volta de 2014–2016, Angola entrou numa recessão prolongada que durou até 2020. As receitas do Estado diminuíram drasticamente, o kwanza enfraqueceu e os bens importados de que Angola depende fortemente se tornaram muito mais caros.

A inflação disparou para cerca de 32% em 2017. Em 2018, Angola tomou uma decisão importante: passou de uma taxa de câmbio fixa para uma taxa de câmbio flutuante, deixando que as forças de mercado determinassem o valor do kwanza, em vez de o banco central o sustentar artificialmente. Esta foi uma reforma necessária, mas trouxe dor a curto prazo, com a desvalorização da moeda a alimentar a inflação importada.

Em 2019 e no início da década de 2020, a inflação foi-se acalmando gradualmente para valores entre os 15% e os 20%, à medida que a economia se ajustava. Depois, em 2023, Angola atingiu o seu ponto mais calmo em anos: a inflação caiu para cerca de 13,6%, o valor mais baixo em quase uma década.

O retrocesso de 2024

Assim que a situação parecia estar a estabilizar, a inflação voltou a subir para cerca de 28% em 2024. Os principais responsáveis foram a renovada fraqueza da moeda e a redução dos subsídios aos combustíveis, que existiam há décadas, uma medida politicamente difícil, mas economicamente necessária, uma vez que o combustível subsidiado representava, há anos, um enorme peso para as finanças públicas.

A situação actual

A boa notícia é que 2025 e 2026 trouxeram uma clara tendência de arrefecimento. Em Maio de 2026, a taxa de inflação anual de Angola já tinha descido para 10,88%, sendo o valor mais baixo em quase três anos. Os analistas apontam a maior estabilidade da taxa de câmbio como a principal razão para o abrandamento dos preços. O Banco Nacional de Angola também começou a cortar as taxas de juro à medida que a inflação recua, um sinal de crescente confiança de que o pior poderá já ter passado, pelo menos, por agora.

Porque é que isto importa

A inflação não é apenas um número sobre o qual os economistas discutem, afecta, directamente, até onde o seu salário chega no supermercado, quanto custa uma corrida de táxi e quão caro é manter a luz acesa em casa. A inflação de Angola tem-se mantido consistentemente acima da média da África Subsariana (cerca de 11%) e muito acima do que as nações mais ricas consideram saudável (2 a 3%). Essa diferença reflecte a forte dependência de Angola das exportações de petróleo e uma moeda historicamente vulnerável às oscilações dos preços globais.

O caminho a seguir

O governo angolano tem procurado diversificar a economia; investindo na agricultura, na mineração e no turismo, precisamente para reduzir esta vulnerabilidade aos choques petrolíferos. Se a tendência de descida dos preços se mantiver, dependerá da estabilidade contínua da taxa de câmbio, dos mercados globais de petróleo e da capacidade do governo de gerir o orçamento sem recorrer, mais uma vez, a cortes drásticos nos subsídios ou à desvalorização da moeda. Por agora, os angolanos têm razões para um optimismo cauteloso: depois de uma década difícil, a direcção parece, finalmente, ser a certa.

Fontes: Trading Economics, FocusEconomics, Banco Mundial, CIA World Factbook

1. Trading Economics, “Angola Inflation Rate” — https://tradingeconomics.com/angola/inflation-cpi

2. FocusEconomics, “Angola Inflation (CPI)” — https://www.focuseconomics.com/country-indicator/angola/inflation/

3. FocusEconomics, “Angola Economy Overview” — https://www.focus-economics.com/countries/angola/

4. World Bank Open Data, “Inflation, consumer prices (Angola)” — https://data.worldbank.org/indicator/FP.CPI.TOTL.ZG? locations=AO

5. Macrotrends, “Angola Inflation Rate Historical Data” — https://www.macrotrends.net/globalmetrics/countries/ago/angola/inflation-rate-cpi

6. CIA World Factbook (via IndexMundi), “Angola Inflation Rate” — https://www.indexmundi.com/angola/inflation_rate_(consumer_ prices).html

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